julho 28, 2008

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Racionais em Teresina... Umas observações!
Por Elton de Aquino Arruda

Estive no show de rap da banda paulista Racionais MC´s. Foi uma oportunidade impar, pois muito embora sempre tenha andado em todos os lugares, do shopping até a quebrada mais cabulosa, me surpreendi com alguns aspectos da epopéia.
Em primeiro lugar fui com um camarada relativamente integrado ao movimento hip-hop no Piauí, ficamos trocando idéias na porta do show até entrar e observava uma certa pluralidade de público, mas muito tacanha, pois os presentes eram mesmo da periferia. Uns com cara de rockeiros e outros com cara de rappers. o visual era mesmo o de “gangstar”, um estilo dentro dos desdobramentos do rap. Achei muito americanizado os uniformes pra curtir um som, esse exibido pela periferia piauiense. Mas logo na entrada percebi que imperava um ambiente de muita paz.
Em segundo lugar, ao entrar e durante todo a noite observei que quase não havia menores. Isso foi o que me chamou mais atenção, porque se estivesse no Piauí pop ou numa micareta certamente estaria lotado de menores bebendo e cheirando loló. Porra! O lugar era mais civilizado do que 90% dos ambientes onde as pessoas dizem consumir arte e cultura, especialmente shows musicais. Isso de certo tem relação com o ambiente de respeito entre as pessoas que lá estavam.
Em terceiro lugar encontrei dois caras que lavam meu carro e o de muitas outras pessoas lá na Av. Maranhão. Interessante, chamaram-me de “truta e camarada” e trocamos apertos de mãos. Bom essa parte foi estranha porque o aperto de mãos “dos trutas” é definitivamente um balé complexo e indecifrável. Aproveitei a oportunidade e perguntei de onde eles eram e disseram ser de Timon, foi quando provoquei para sentir o clima do local: “vocês devem estar mesmo se garantindo, pra vim curtir longe de casa assim...”. Eles afirmaram “ tô nem aí pro setor, vamu curtir o som e sair fora pra amanhã trabalhar”. Beleza! Vejam a onda: se eu estivesse em determinados lugares não marginalizados provavelmente tinha um monte de valentões e bêbados otários com os nervos à flor da pele.
Em quarto lugar ficou claro que o movimento ainda é muito masculinizado. Não somente pelos timbres de voz e as danças que exigem profundo esforço físico, as mulheres eram artigo escasso no local. Paciência, nem tudo é perfeito.
Fui pra casa antes do show principal acabar. Estava realmente cansado e não sou mesmo de curtir festas e multidões, mas saí sem alteração depois de aproveitar um bom show, um ambiente sadio e de trocar idéias interessantes com uma pá de gente boa. Foi uma oportunidade de observar mais que uma festa, mas como arte comprometida com as questões sociais faz bem as pessoas.
Peço desculpas pelas gírias e palavrões, acho que ainda estou influenciado, mas estou declaradamente aliado ao movimento hip-hop. Na qualidade de professor, com meu 34 anos, daqui da minha “vidinha organizada”, posso dizer que para melhorar a vida nas periferias a saída é 100% hip-hop na veia.

Elton de Aquino Arruda é professor de geografia em Teresina, Piauí. Mantem o blog http://eltonarruda.blogspot.com/

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maio 12, 2008

Ronaldo e as hienas
por João Pereira Coutinho

Vivemos tempos interessantes. Basta ler jornais. Ou revistas. Ou assistir a programas televisivos. A liberalização dos costumes é total. Sexo? Nunca se viu tanto como agora. E nunca se derrubaram tantos tabus como agora. Abaixo o moralismo, abaixo os moralistas. Ou, como se dizia em Paris, quarenta anos atrás, é proibido proibir. Um vitoriano que viesse diretamente do século 19 ficaria em estado de choque com a libertinagem festiva do século 21.
Ou talvez não. Porque aqui reside o paradoxo do nosso tempo: nunca se viu tanto moralismo, e tanto moralista, como agora. Basta ler os mesmos jornais. Ou revistas. Ou assistir aos mesmos programas televisivos. Sempre que uma figura pública é "apanhada" com companhias pouco recomendáveis, o mesmo jornalismo que faz do século 21 uma orgia sem limites regressa imediatamente ao século 19, espiolhando os lençóis e condenando a intimidade alheia. Sexo? Já não há tabus. E, paradoxalmente, nunca existiram tantos tabus como agora.
Um dos últimos casos aconteceu com Ronaldo, o jogador de futebol que, segundo leio, foi "apanhado" com dois travestis no Rio de Janeiro. O caso despertou indignação, risadas e interrogações. E, no entanto, que crime cometeu Ronaldo para que as fogueiras fossem ateadas em público?
Excetuando o consumo de drogas, que não foi provado, encontramos um homem adulto que, depois de uma noite de farra, resolveu solicitar os serviços de profissionais. A indignação e as risadas de jornalistas ou leitores, que subitamente descobriram o inquisidor moralista que vivia dentro deles, ignoram o aspecto mais rasteiro do "problema": contratar prostitutas não tem qualquer história ou moral. E muito menos comentário: não existe um único jornalista ou leitor que, ao pensar na sua vida sexual, e sobretudo na história da sua vida sexual, não encontre motivos de pudor ou vergonha. Sempre que vejo uma hiena a gritar ou a rir da intimidade alheia, sei instintivamente que a hiena não ri dos outros; aproveita-se dos outros para descomprimir as suas próprias taras, culpas ou frustrações.
Restam as perguntas habituais em casos do género: se Ronaldo tem todas as mulheres do mundo, por que duas prostitutas de rua? A resposta possível passaria por repetir a pergunta, mas sem o ponto de interrogação. Para quem tem todas as mulheres do mundo, talvez o supremo desafio, ou a suprema necessidade, seja regressar à parte mais suja e sombria e até animal da realidade. Isso não mostra a fraqueza de ninguém. Mostra, pelo contrário, a complexidade da natureza humana.
O espírito do nosso tempo oscila continuamente entre a libertinagem mais artificial e o moralismo mais artificial. São atitudes gêmeas porque são duas formas de fundamentalismo. E o mundo, aos olhos do fundamentalista, é todo preto-e-branco. Só as hienas acreditam nesse mundo. E só as hienas passam por ele a rir ou a gritar, enquanto se alimentam com os detritos dos outros.

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abril 20, 2008

1968 - 40 anos depois
Por Antônio Capistrano

O grande cineasta italiano Bernardo Bertolucci realizou a pré-estréia no Festival de Veneza, (2004) na Itália, do seu filme "Os sonhadores", que trata do período mais fértil e inquietante do pós-guerra, que tem o seu ápice em 1968. Estou ansioso para assistir a esta película, por diversos motivos. Entre eles, ver como a genialidade de Bertolucci retrata um dos períodos mais transformadores do século XX, só comparado, a meu ver, com a bela época da década de 20 na Europa, e que, aqui no Brasil, foi também um momento de grande ebulição: o tenentismo, o fortalecimento do movimento operário, a criação do Partido Comunista Brasileiro, a Semana de Arte Moderna, tudo isso culminando com a Revolução de 1930, marco divisor da nossa história. Nesse filme, segundo a imprensa especializada, Bertolucci resgata a história e a importância dos fatos da geração/60, que tinha como característica a aglutinação das pessoas não pela idade, mas, sim, pela afinidade de idéias.


Eu vivi intensamente este período. Os anos sessenta marcam, de forma indelével, a minha vida, principalmente o ano de 1968. Ano da Primavera de Praga - sonho do socialismo democrático, da morte do estudante Edson Luís no Rio de Janeiro, da passeata dos 100 mil, os estudantes nas ruas, as barricadas de Paris, consolidação da figura mítica de Che após seu assassinato na Bolívia, em 1967. Também, ano do meu casamento. Eu estava com 21 anos, militante do Partido Comunista Brasileiro, estudava no Atheneu, freqüentador das Cocadas (Praça Kennedy), centro efervescente de todas as tendências ideológicas, espaço democrático da capital, encontro de todas as tribos; esquerda, direita e centro, dos existencialistas, leitores de Jean-Paul Sartre e de Albert Camuns. Dos católicos leitores do grande Alceu de Amoroso Lima ou do reacionário Gustavo Corção. Dos socialistas seguidores de Antonio Gramsci, Roger Garaudy, George Luckás, dos trotskistas, stalinistas, maoístas, fidelistas, leninistas, dos integralistas de Plínio Salgado, dos adeptos de todas as religiões e credos, os apaixonados pela Sétima Arte, os apreciadores de uma boa leitura, os torcedores fanáticos do futebol e dos fregueses dos bares da bela e inesquecível vida provinciana da nossa capital.
1968, ano que marcou a minha geração, que, como todas as gerações, era revolucionária. Geração que foi para as ruas na luta contra as repressões de todos os tipos, na busca de novos caminhos de liberdade e de justiça social. Geração que lutou contra as guerras, na defesa da paz em todo o mundo. Geração que gostava dos Beatles e dos Rolling Stones, que lutava contra a guerra do Vietnã e contra o racismo em todas as partes do mundo. Geração que adorava Glauber e o Cinema Novo, que vibrava com as composições de Vandré (Para não dizer que não falei das flores), e as de Chico (A Banda), as de Caetano (É Proibido Proibir), geração que admirava a Jovem Guarda através das canções do seu ídolo Roberto Carlos, que descobria na literatura os grandes escritores regionalistas - Jorge Amado com a sua famosa trilogia "Subterrâneos da Liberdade". Graciliano Ramos com seu estilo apurado, relatando o flagelo dos retirantes através do seu grande romance, "Vidas Secas". Rachel de Queiroz, mostrando com o "Quinze" a vida dos nordestino do semi-árido no período da seca. José Bezerra Gomes, retratando o Seridó dos algodoais através de "Ouro Branco". José Lins do Rego, o romancista do cotidiano dos canaviais, dos meninos de engenho, dos moleques ricardos, dos bangüês, dos engenhos, das usinas e dos coronéis, donos do sertão nordestino. Guimarães Rosa com o seu "Grande Sertão: Veredas" obrigando-nos a consultar Nei Leandro de Castro, através do seu "Universo e Vocabulário do Grande Sertão", ensaio premiado pela ABL, que traduz a linguagem regional de Guimarães Rosa. Geração que recitava poemas de Vinicius, Jorge de Lima, Bandeira, Drumonnd, João Cabral, Thiago de Melo, sem esquecer a poesia concreta e o poema processo de Moacyr Cirne, Anchieta Fernandes, Dailor Varela, Falves, Franklin Capistrano e Haroldo de Campos. É essa a geração/68 que Bertolucci resgata, geração que, como diz a canção, "sem lenço e sem documento", rompeu barreiras e quebrou tabus, preparando o mundo para um novo século e um novo milênio.

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outubro 09, 2007

Diário de um Ernesto
Por Sandino

RIO 2007 - Caminho pelo Engenhão zero bala, a turma está com fome. Para fugir da exploração dos licitados fast foods, é preciso descer longas rampas e ir próximo aos muros do estádio, de onde são arremessados os lanches naturais de atum (perigosos e duvidosos). No caminho, trombamos com uma delegação cubana que pousa para fotos entre turistas e comunistas acidentais. Entre os atletas, está o medalhista Yordan Garcia - descubro depois que seu nome remete ao diretor e roteirista de cinema Philip Yordan - “El Cid” (1961) e “55 Days at Peking”(1963), passou na ilha no “cinema popular”, com direito aos caracteres na tela grande em CineScope.
Em virtude da baixa pontuação obtida no “Salto com Vara”, Yordan teve que se contentar com medalha de prata no Decatlo. Depois de uma foto com o atleta, puxo um pouco de conversa. Quero saber como um país pequeno (110.860 km², um pouco maior que o estado de Pernambuco) e de economia agrária, consegue tanto sucesso no esporte. Demonstrando-se inicialmente um tanto arredio a prosa e verso, tenho como resposta a combinação de “educação, esporte e saúde”. Aprendo também sobre o funcionamento dos “centros esportivos” e da capacitação de atletas e treinadores. Quando se sabe ouvir, não precisa muitas palavras!
De olho no abrigo esportivo do atleta, proponho uma troca com uma camiseta quase genuína do todo poderoso timão. O cubano rejeita a oferta e comenta sobre o fato do patrocinador ser uma multinacional coreana (do sul) repleta de capital norte-americano. Se ele soubesse da MSI então?! Descubro também que os cubanos não dão muito valor para o futebol e naquelas bandas, Maradona é mais conhecido do que Pelé. Descubro mais...Yordan é culto, tem apenas 19 anos e sua meta é estar no pódio em Pequim 2008. Quero saber mais e como gancho para entrarmos na política cubana, pergunto sobre o “seqüestro” de Juan Manoel Fangio - assunto obrigatório nas escolas de lá. Um seqüestro??? - dirão alguns desavisados! Em tempo: antes que a revista Veja publique que desceram a botinada no piloto, é bom esclarecer que Fangio foi muito bem tratado e respeitado enquanto esteve nas mãos dos guerrilheiros. Foi uma revolução justa e autêntica, em nada lembra o genocídio ao povo paraguaio promovido pelo “corajoso” Duque de Caxias e o “bravo” Conde D´Eu.
A conversa já está boa. Arrisco comentar sobre os boxeadores desertores. Óbvio: numa delegação de 500 atletas não se pode quantificar a insatisfação tendo como referência a atitude de 3 atletas. “Depois eles voltam, estão iludidos. É a interferência da TV de Miami”, justificam.
Pergunto então sobre a possibilidade da deserção, temo ser confundido com o procurador do goleiro Doni. Yordan ri e diz: nunca, pra que? A justificativa é contundente e desperta para as prioridades de um povo. Yordan lembra que 6 mil crianças morrem por dia no mundo, vítimas da fome, frio e doenças terceiro-mundistas. Nenhuma delas é cubana. Milhões de pessoas passam o dia em macas e corredores de hospitais em busca de tratamento médico. Nenhum desses cidadãos são cubanos! Há ainda no mundo cerca de 875 milhões de analfabetos. Nenhum cubano figura nesta estatística.
Tento uma última oferta na jaqueta. Proponho torcer por Yordan na próxima olimpíada, caso fique guardião de sua jaqueta. “Todo bueno, es su!”.
Despedimos de Yordan e de posse do precioso souvenir (já no corpo, GG) volto a pensar na fome. Próximo do portão, uns torcedores gaúchos, todos colorados, estampam a figura do lendário Che Guevara em uma bandeira. A oferta e o contato são inevitáveis! 50, 100, 200, 700, 1.500 reais? Desculpe caros amigos dos pampas... mas como diria um batido jargão capitalista: tem certas coisas que o dinheiro não compra, para todas as outras existe o tal do master card. Para a civilização, a revolução cubana não tem preço!

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agosto 15, 2007

Hérois anônimos

Superman cotidiano
Por Carlos Maia (afroreggae)

Desde a infância, ainda no período escolar, nós aprendemos a decorar quem foram “os grandes vultos da nossa história” e seus feitos gloriosos: quem proclamou a independência do Brasil? Resposta: Dom Pedro. Quem libertou os Escravos? Princesa Isabel. Quem criou leis em favor dos trabalhadores? Getúlio Vargas. Ficamos assim, com a impressão de que todo o curso dos acontecimentos depende da ação única e exclusiva de uma meia dúzia de iluminados. Não é de se estranhar que muitos alunos não tenham interesse pela disciplina de História, pois não se vêem representados ali e o povo aparece como coadjuvante – isso quando é mostrado.

Não é dito aos estudantes que toda mudança feita na sociedade depende das ações do conjunto da sociedade, e que direitos não são dados, e sim conquistados. Na TV, no cinema e nas histórias em quadrinhos vemos aos montes seres com habilidades excepcionais salvando o mundo e sendo aclamados pelos cidadãos; é sempre a mesma história: o povo não sabe agir sozinho, precisa da ajuda de alguém superior. A maioria das pessoas não percebe que ao longo da vida recebem uma educação política. E numa sociedade que valoriza a fama e o espetáculo como a nossa, nós todos, em maior ou menor grau, aprendemos a prestar atenção em quem é notícia, seja um “artista” pela roupa que está usando, o novo vencedor do reality show, ou ainda o fulano que trocou de namorada.
Vamos assim nos apequenando, servindo de bateria para alimentar essa grande indústria que lucra de todas as formas às nossas custas. Seguindo a tradição dos grandes feitos, idolatramos um determinado jogador de futebol em detrimento de todos os outros (o cara venceria um jogo, ele apenas contra outros 11?); veneramos o ator da novela e não notamos o artista do nosso bairro; a menina fica deprimida por não ter o mesmo padrão de beleza da modelo da passarela; desejamos a mulher que saiu nua na revista e esquecemos da que está sempre ao nosso lado para o que der e vier e assim por diante. Robotizados, vamos nos tornando insensíveis ao que se passa ao nosso redor.
Mas quanta dignidade há naquilo em que menos botamos valor. Uma família composta de mãe, pai e filho que dormem ao relento - quantas histórias e lições de vida deixamos de aprender ali por nossos preconceitos... A velhinha que vai catando as latinhas de refrigerante deixadas para trás – quanta sabedoria deve ter ali numa força que misteriosamente se manifesta na fraqueza. E ainda toda a gente que levanta as quatro ou cinco da manhã, enfrenta duas conduções para chegar ao trabalho e mais duas para voltar para casa e, chegando lá, vai fazer a janta, cuidar dos filhos ou ainda se dedicam a outras atividades (estudo, trabalho voluntário).
Diante desse quadro, todas as crises que o país atravessa se tornam pequenas diante da capacidade de um povo que não desiste e está sempre pronto para recomeçar no dia seguinte. Durante anos no bairro de Realengo, Zona Oeste do Rio, uma mulher jovem ia catando papelões por todas as latas de lixo e ainda conseguia cuidar do filho ao qual levava em velho carrinho de crianças. Muitos diriam que ela estava condenada a fracassar, pois naquelas condições não conseguiria ir muito longe. Dentro da nossa sociedade, talvez ela não tenha ido “muito longe”, mas com toda a certeza ela não fracassou, pois continua lá com seus papelões e seu filho que era um bebê, agora é uma criança crescida – e saudável.

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maio 29, 2007

Os mercenários de Bush no Iraque
Por Altamiro Borges*

O jornal Folha de S.Paulo publicou neste domingo uma aterrorizante reportagem do seu correspondente em Washington, Sérgio Dávila, sobre os mercenários dos EUA que atuam na carnificina do Iraque. "Há hoje entre 100 mil e 130 mil ‘soldados privados’, termo preferido pelas companhias que os empregam, em ação na guerra, a maioria em atividades ligadas à segurança e à defesa. O total é quase o equivalente aos 145 mil soldados norte-americanos atualmente no país. Estima-se que US$ 0,40 de cada dólar destinado ao Iraque pelo contribuinte americano pare nas mãos de uma empresa de segurança privada", relata.

A criminosa atuação destes grupos para-militares só ganhou destaque na mídia em decorrência da vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas do final de 2006. Desde o início deste ano, a Câmara dos Representantes, agora sob o controle da oposição, investiga a sinistra atividade das empresas de segurança privada. "Nas audiências, um dos nomes mais ouvidos é o da companhia Blackwater. Desconhecida do grande público até 2004, a companhia criada pelo ex-militar e religioso conservador Erik Prince surgiu no noticiário ao ter quatro contratados carbonizados por insurgentes em Fallujah, em março daquele ano".
Vínculos com a família Bush
Numa convenção militar na Califórnia, em 2006, Erik Prince se jactou pelos serviços prestados por sua empresa, batizando-a de "Fedex dos Exércitos". "Quando você tem presa, não usa o correio normal, mas o Fedex. Nossa meta é ser o equivalente para o aparato de segurança nacional". A companhia tem sólidos vínculos com a família Bush. Segundo o Wall Street Journal, foi uma das maiores doadoras da campanha presidencial de George W. Bus e atualmente tem perto de US$ 800 milhões em contratos com o governo. Outra empresa de segurança, a USIS, subsidiária da Carlyle Group, já teve Bush-pai na sua diretoria.
Segundo Sérgio Dávila, estes assassinos profissionais agem totalmente sem regras. "Diferentemente dos soldados, que respondem ao código de conduta do Pentágono, os ‘privados’ se encontram numa zona juridicamente cinzenta. Até 2007, eram regulados pela Ordem 17, assinada por Paul Bremer em junho de 2004, uma semana antes de deixar o comando provisório do Iraque. Pela disposição, nunca revogada, ‘os privados devem ser imunes ao processo legal iraquiano em relação às ações realizadas por eles enquanto a serviço de empresas’... Com quatro anos de guerra, só dois mercenários em ação no Iraque foram levados à Justiça dos EUA, um condenado por matar um civil e outro por ter pornografia infantil no computador".
A "terceirização" da violência
O inusitado destaque da mídia hegemônica mundial e nacional para a ação criminosa das firmas privadas de segurança só confirma o desastre da invasão imperialista no Iraque - já comparado ao fiasco no Vietnã - e o desgaste do presidente-terrorista George W. Bush. Há muito que jornalistas independentes e meios alternativos de comunicação já denunciavam a "terceirização da violência", envolvendo uma "indústria da morte" que movimenta mais de US$ 100 bilhões. No excelente "dossiê dos mercenários", publicado pelo jornal Le Monde Diplomatique de novembro de 2004, o jornalista Philippe Leymarie deu detalhes da ação desta "nova geração de cães de guerra", numa alusão do título do bestseller de Frederick Forsyth.
Após citar o escândalo do envolvimento de Mark Thatcher, filho da ex-dama de ferro da Inglaterra, com um grupo mercenário no Zimbábue, em março de 2004, a reportagem concluía que estes bandos estavam mais ativos do que nunca. No passado, foram "manipulados por serviços de inteligência e multinacionais" e ficaram conhecidos pela "imagem de selvageria e rapina". Já hoje, eles são mais profissionais e servem diretamente às ambições imperialistas. "Passou-se de um mercenarismo ‘romântico’, com predominância ideológica, para um mercenarismo empresarial, com motivação financeira, que oferece amplo leque de ‘serviços’, desde o aconselhamento até a vigilância de minas e de poços de petróleo e ações de guerra".
"Cães de guerra corporativos"
Outra reportagem elucidativa sobre a ação destas "empresas de segurança" foi publicada na revista Carta Capital, em julho de 2003. Assinada por Walter Fanganiello e intitulada "os cães de guerra corporativos", ela denunciava que "essas multinacionais contam nos seus quadros com generais reformados, plenos de experiências adquiridas em diversos campos de batalha e carregados de medalhas por bravura. Essas sociedades comerciais são chamadas de Private Military Companies (PMC). Não fossem as formalidades e as cláusulas dos contratos sociais de constituição - que as colocam na legalidade como pessoas jurídicas -, elas poderiam ser confundidas e passar por associações hierarquizadas de mercenários".
"As PMC são muito requisitadas pelos grupos econômicos que exploram, pelo Terceiro Mundo, rendosas atividades extrativas. Os mencionados grupos sentem a necessidade de proteger a posse de áreas e os seus prepostos". Entre outros casos de empresas de violentos mercenários, o autor cita a Military Professional Resources Inc (MPRI), que treinou e monitorou os bandos armados de separatistas da ex-Iugoslávia e que atua até hoje no combate à guerrilha na Colômbia. No final, o jornalista ainda alerta: "Muitas dessas PMC ambicionam prestar serviços nos morros do Rio de Janeiro, na Tríplice Fronteira e na região amazônica".
"Máquina de destruição e morte"
Por último, vale citar a recente reportagem de Juan Carlos Guerrero, da agência Prensa Latina, que trata especificamente da ação destas gangues no Iraque. Com base em dados do próprio governo fantoche deste país, ele informa que já existem 236 companhias de segurança privada, estrangeiras e iraquianas, atuando nesta devastada nação. "Destas, cerca de 200 são consideradas ilegais, por carecerem de registro e terem ‘funções’ desconhecidas. A maioria está implicada em ações terroristas que são colocadas na conta da resistência iraquiana". Os mercenários são contratados em várias partes do mundo -inclusive no Brasil.
"Não importa sua origem; são mais de 100 mil homens bem adestrados no ofício de matar por dinheiro... Suas obrigações laborais estão focadas na seguridade pessoal de políticos iraquianos e estadunidenses e de homens de negocio e na segurança de instalações petroleiras e militares. Muitos destes serviços, de que pouco se fala, estão ligados à construção de bases, interrogatórios e combates diretos. Eles são acusados de intervir em operações secretas dos organismos de inteligência dos EUA e em outros trabalhos sujos destinados a promover o terror, o medo, as diferenças religiosas e, inclusive, a organização de esquadrões da morte para semear o caos... São elementos especializados nas tenebrosas artes da subversão".
"Um negócio vantajoso"
O uso destes "serviços" cresceu a partir das dificuldades encontradas pelos militares dos EUA no Iraque. O número de mercenários quadruplicou em quatro anos, pulando de 48 mil ‘soldados privados’, em 2003, para mais de 100 mil nos dias atuais, segundo dados da própria Oficina Geral de Contabilidade (GAO). A utilização destes grupos serve ainda para reduzir as estatísticas oficiais de baixas desde a invasão do país em março de 2003. O Departamento do Trabalho dos EUA estima que mais de 650 "funcionários" foram mortos pela resistência iraquiana. "Para o Exército e o governo dos EUA o negócio é muito vantajoso. Os mercenários são simples assalariados em busca de fortuna, quando morrem não engrossam a lista oficial de baixas na guerra, não estão envoltos em discussões legais e nem são alvo da pressão pública".
Guerrero também destaca a ação da Blackwater, "empresa especializada em contraterrorismo e combates urbanos, uma das maiores em operação no Iraque. Ela tem um exercito multinacional de 3 mil membros e é considerada a maior base militar privada no mundo, com campos de treinamento sofisticados, dezenas de aviões e vínculos estreitos com as altas esferas do Pentágono e da Casa Branca". Além da contratação de treinamento de mercenários, a Blackwater também vende equipamentos bélicos para os EUA e ajuda na "reconstrução" do Iraque, prestando serviços para corporações como a Lockheed, General Dynamics e a famosa Halliburton - empresa de petróleo e armamentos vinculada ao vice-presidente Dick Cheyne.
Todas estas "empresas privadas" são teleguiadas pela sinistra agência de inteligência dos EUA. Em 2005, oficiais da CIA revelaram ao Washington Post que 50% do orçamento da agência, quase US$ 20 bilhões, foram destinados para pagar os ‘contratistas’. A própria CIA estima que as despesas com estes serviços dobrem até 2010. Estes recursos, provenientes dos tributos dos estadunidenses, são usados para financiar "uma máquina de destruição e morte". Guerrero encerra seu excelente artigo lembrando que, "embora o fenômeno do mercenarismo não seja novo, ele cresceu com a chegada de Bush a Casa Branca".

* Jornalista, editor da revista Debate Sindical

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agosto 15, 2006

Os 80 anos de Fidel: confidências
Leonardo Boff *

O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela, mas de ti mesmo.Em 1985 o então Card. Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes.
Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse: "Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu.

Durante 15 dias, seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o déficit de democracia.
As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam pela madrugada adentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia: "Agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia.
Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou: "Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso.
Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres.

* Teólogo. Membro da Comissão da Carta da Terra

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julho 16, 2006

Aos pobres: a lei, a polícia e a morte
Rogério Almeida

A execução de pobre é natural. Esteja o indivíduo no interior do Pará, como é comum; ou em uma favela do Rio de Janeiro. Caso seja na Baixada Fluminense, trata-se apenas de lógica pura. Por Rogério Almeida, abril de 2006
A notícia de execução de sem terra no Pará, ou negros pobres no Rio no Janeiro, não anima editoriais indignados dos jornalões, nos programas de TV?s, entre os principais articulistas, sites à fora. Naturaliza-se a questão. É como se os que se arvoram a formadores de opinião, exclamassem aos quatro ventos: negro e pobre, o destino só podia ser este.
As mulheres camponesas
Ao se examinar a cobertura sobre os episódios ocorridos no Rio Grande Sul, protagonizados pelas mulheres camponesas, e o ocorrido numa fazenda de família com extensa ficha de indiferença às leis e à vida, no sudeste do Pará, aflora a ausência de tratamento equânime.
Não de hoje, pesa sobre as costas dos camponeses signos pejorativos. Se numa perspectiva as mídias exaltam em belos enquadramentos o agronegócio, num pólo oposto esmera-se num processo contínuo em criminalizar e desqualificar a luta pela terra e a reforma agrária.
Num extremo, o agronegócio desponta sob a ótica da eficiência competitiva, enquanto ao camponês (a), cabe o signo do atraso, empecilho ao processo capitalista, à transgenia, ao monopólio da terra e dos recursos naturais por grupos estrangeiros. Assim advogam os defensores do capitalismo agrário.
O morticínio no Pará é naturalizado
Já o morticínio de lavradores (as), em particular no Pará, estado com ficha a perder de vista, é tratado como conflito e naturalizado. Ignora-se a diferença de forças entre as partes. Fecha-se os olhos para os elevados índices de morto só num segmento, os camponeses.
E todos os ditos formadores de opinião convivem com o espírito tranqüilo ante tal realidade. É violência a ação de cidadãos marginalizados, que afrontam as cercas do latifúndios, mas não o é, assim publiciza as mídias, as chacinas de camponeses.
Quanto ao Judiciário, célere nas na expedição de liminares de reintegração de posse, sem questionar a autenticidade da posse, funciona a passo de cágado, em processos de execução de posseiros, lavradores, sem terra, indígenas etc.
Conforme CPI da Grilagem de Terras de 2001, somente 2% dos títulos de terra na Amazônia são passíveis de autenticidade. E a recente CPMI da Terra, cujo domínio político é dos ruralistas, taxa a luta pela terra de crime hediondo.
Se os fazendeiros obstruem rodovias, trata-se de contingências. Dois sem terra é formação de quadrilha. O sudeste paraense é a região com a maior concentração de projetos de assentamento do país. A eficiência das políticas do governo do estado para tal segmento, reside em mandar tropas de choque, canil, cavalaria para efetuar reintegração de posse. Até onde se sabe, cultivar não exige polícia.
Trata-se de região marcada pela implantação de grandes projetos. Onde, na dita transição democrática, se verificou, uma vez mais em nossa história marcada pelo patrimonialismo, o enriquecimento de meia dúzia de empresários do centro sul do país e a concentração de terra.
Expediente marcado pela ilegalidade ou burla da lei, como no caso dos aforamentos dos castanhais, onde a posse provisória da terra se transformou em posse definitiva. Foi quando os fazendeiros, escudados na legenda da União Democrática Ruralista (UDR), organização ultra-conservadora, semeou nas terras dos castanhais, na década de 1980, as maiores chacinas contra posseiros.
Quem vai se indignar pelas injustiças a que está submetida a maior parte da população brasileira, senão ela própria, ou parte dela que se organiza e enfrenta o autoritarismo dos coronéis do sertão, do agronegócio, das mídias?

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Movimento dos Sem-Terra, idéia e objeto
Por Marcio Lorin

Há um esforço por parte da imprensa em relacionar movimentos sociais ao atraso. Não é raro assistirmos ou lermos reportagens sobre a ação de movimentos ou mobilizações sociais associados à idéia de resistência ao avanço técnico e ao progresso.
Um conceito forjado na cabeça pela repetição de centenas e milhares de notícias carregadas de ideologia que, segundo Marilena Chauí, é um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação. Por intermédio dela, tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo.

No caso das ações do MST, não é diferente. Nunca vi na mídia oficial algo sobre os mais de cem prêmios e honrarias recebidas pelo movimento, como também nunca vi, apesar de ter me esforçado, notícias sobre as 1.800 escolas de ensino fundamental, com 160 mil crianças e adolescentes, funcionando em acampamentos e assentamentos. Até mesmo em nossa cidade, grande parte da população desconhece que temos uma escola chamada Milton Santos, com programa reconhecido pelo MEC e professores (membros do MST) com pós-graduação. Ainda assim, a imagem passada pela maioria dos meios de comunicação é a de que tal movimento se trata de um grupo terrorista.
Atos de desobediência civil, praticados e apoiados pelo MST, põem em xeque a verdadeira intenção do movimento e, nesse trajeto, entram em choque com a estrutura legal, legitimadora de um determinado modus de organização da sociedade.
Em suas lutas, o MST nunca atentou contra a vida. Ao contrário das reações conservadoras que fizeram de Chico Mendes, irmã Dorothy e mais de 1.650 mortos somente nos últimos 23 anos.
O MST e outros movimentos revelam o tamanho das contradições que envolvem a questão agrária no Brasil, aliás, fruto não só de um atraso institucional, mas principalmente de uma resistência corporativa às boas novas, conseqüências de um processo de democratização. Esse processo deve ser pleno, no sentido de permitir o acesso aos meios de produção, no caso a terra. É o contrário de uma concepção minimalista de uma democracia que consiste apenas no direito às urnas, como querem as oligarquias. Tal arcaísmo se torna evidente diante do retrocesso que significou o resultado da CPMI da Terra.
Ao contrário da idéia de muitos, fundada no obscurantismo ideológico provocado pela mídia, o MST não é uma força retrógrada e sim uma contraposição ao maior símbolo de atraso do Brasil, cuja estrutura fundiária já dura 500 anos e é a espinha dorsal para o desenvolvimento de qualquer nação. Oxalá tivéssemos mais MSTs para chacoalhar o pó desse modelo cheirando a mofo.

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janeiro 30, 2006

Martin Luther King - O sonho assassinado
por Pascal Marchetti-Leca

Atlanta, 1935. Uma cabecinha encarapinhada vagava com sua candura perspicaz pela Auburn Avenue. O olhar perturbador, o passo medido. O menino, o pensamento longe, às vezes interrompia o passeio para jogar a bola que levava entre o braço e o peito. Improvisava acrobacias e batia a bola ao mesmo tempo que declamava passagens do Livro da Sabedoria: "Amai a justiça, vós que julgais a terra, pensai no Senhor com retidão, procurai-o com simplicidade de coração". Em seguida, mudando de atitude, tornava a pôr a bola debaixo do braço. Apesar de jovem, o garotinho sabia efetivamente que, mesmo sendo sagradas, as Escrituras, das quais as pessoas se desviam, não deixavam de ser vãs. E por mais de um motivo.
Filha de Adam Daniel Williams, o pastor da igreja batista de Ebenezer, que desde a década de 1910 militava na NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), sua mãe, Alberta, inculcou-lhe os princípios da moral evangélica. Oriunda de um meio privilegiado, ela havia freqüentado os melhores colégios. Ainda que sempre denunciasse a discriminação racial, a verdade é que nunca as sofreu diretamente. No dia 25 de novembro de 1926, casou-se com Mickael Luther King, filho de um meeiro de Stockbridge que estava em Atlanta para estudar.
Antecipando-se ao sonho igualitário do filho, Mickael, que trocaria o nome por Martin, teve participação na luta pela emancipação do povo negro. "Meu pai [...] decidiu nunca mais entrar num ônibus da cidade por ter presenciado certas brutalidades de que eram vítimas os passageiros negros. Foi ele que assumiu o comando da luta [...] pela igualdade de salários dos professores e teve um papel preponderante, nos tribunais, para que se eliminasse a segregação nos elevadores", recordaria King ao receber o Nobel da Paz.

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Martin Luther King : "Sonho que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos senhores hão de se sentar juntos à mesa da fraternidade. [...] Sonho que meus quatro filhinhos um dia hão de viver num país em que não serão julgados pela cor da pele, e sim pela natureza do seu caráter...".

Em 1931, com a morte de Williams, seu genro o sucedeu à frente da paróquia de Ebenezer. Martin Luther King pai conquistou a confiança da comunidade negra e a estima reticente dos brancos. Alberta e ele cuidavam zelosamente dos três filhos. Longe dos guetos, Christine, Adam Danmiel Jr. e, naturalmente, o caminhante da Auburn Avenue tiveram uma infância mimada de classe média. "Meu pai, que punha a família acima de tudo, sempre nos proporcionou o necessário. Embora tivesse apenas um salário normal, seu segredo era ser mestre na arte de [...] administrar o orçamento. [...]A vida me foi dada como um presente de Natal", comentou certa vez King.
Nascido em 15 de janeiro de 1929, Mickael, que, tal como o pai, posteriormente adotaria o nome Martin, começou freqüentando escolas públicas da capital da Geórgia. Não tardou a amargar a experiência da segregação. Na escola, o menino não compreendia que teria de se afastar do companheiro de brinquedos, um aluno branco com o qual gostaria de dividir a carteira: "A ruptura se consumou quando ele me contou que seu pai o havia proibido de brincar comigo. Nunca vou esquecer o choque imenso que isso me causou".
Em 1944, ao concluir um curso brilhante num estabelecimento de ensino secundário da cidade, ingressou no colégio universitário de Morehouse, onde já o precediam "três gerações de King". Optou pela teologia. No dia 25 de fevereiro de 1948, foi ordenado no templo de Ebenezer. "Eu me criei na religião. Meu pai é pastor, meu avô era pastor, meu bisavô era pastor, meu único irmão é pastor, o irmão de meu pai é pastor. Portanto, eu não tinha escolha", explicou. Promovido a assistente na paróquia do pai, Luther King continuou o estudo de sociologia. No mesmo ano, trocou Morehouse por Chester, na Pensilvânia.
Lá se matriculou no seminário de Crozer, onde se diplomou em teologia em 1951. A seguir, decidiu aprimorar a formação na universidade de Boston. E, enquanto se dedicava à redação de uma tese, apaixonou-se por uma estudante de musicologia, Coretta Scott, com quem se casou pouco depois. Martin Luther King pai abençoou o casal em 18 de junho de 1953. Dessa união nasceram Yolanda Denise, apelidada Yoki (1955), Martin Luther III (1957), Dexter Scott (1961) e Bernice Albertine (1963).
Inicialmente, o jovem casal se fixou em Montgomery (Alabama), onde, apesar da forte tensão social, King aceitou, em 1954, o ministério pastoral de Dexter Avenue.
Imbuído da obra dos grandes filósofos (Platão, Aristóteles, Rousseau, Locke), do sociólogo Walter Rauschenbusch e do pensamento de seu mestre, Gandhi, concluiu, paralelamente, o trabalho de pesquisador. A universidade de Boston acabava de lhe conferir o título de doutor quando irrompeu um conflito racial cuja violência haveria de orientar todo seu pastorado. No dia 1o de dezembro de 1955, Rosa Parks, costureira de 42 anos [que morreria no final de 2005 com 92 anos], tomou um ônibus a fim de voltar do trabalho para casa. O veículo não tardou a ficar lotado. O motorista não teve dúvidas em mandá-la ceder o lugar a um passageiro branco. Ainda que educadamente, Rosa Parks recusou se levantar. Foi presa imediatamente. Ativista dos direitos civis de grande influência na comunidade negra, Edgar Daniel Nixon interferiu, encarregando-se de pagar a multa a que Rosa Parks fora condenada.
Os chefes de clãs e os pastores se mobilizaram para defendê-la e fundaram o MIA (Movimento pelo Progresso de Montgomery), à frente do qual colocaram Martin Luther King. Enquanto se organizava o boicote dos ônibus, King esboçou sua doutrina da não-violência - "Amai vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam" - e, pouco a pouco, erigiu-se defensor dos negros dos Estados Unidos.
A municipalidade procedeu a prisões em massa (de numerosos pastores, entre os quais o próprio King) que, longe de abafar o fato, chamaram a atenção da imprensa. A empresa de transporte coletivo de Montgomery ficou à beira da falência. As autoridades pressionaram King para que pusesse fim ao boicote. Sucediam-se as intervenções e as intimidações. Em janeiro de 1956, seu domicílio chegou a ser alvo de um atentado. King resistia. No entanto, em 4 de junho de 1956, o tribunal federal do distrito condenou as normas segregacionistas vigentes no transporte coletivo. O prefeito recorreu à Suprema Corte, que, no dia 13 de novembro seguinte, confirmou a sentença. Naquela noite, os capuzes brancos e as violências da Ku Klux Klan não intimidaram ninguém.
No entanto, ainda não era o caso de se acomodar numa presunção de vitória. A partir de janeiro de 1957, os porta-vozes de dez estados sulistas se reuniram para fundar a SCLC (Conferência dos Dirigentes Cristãos do Sul). King foi eleito seu presidente. A organização apoiava sua luta no respeito generalizado às novas disposições legais em matéria de transporte coletivo e no direito de voto dos negros. Incansável, ele percorreu os Estados Unidos, tendo pronunciado mais de cem discursos em um ano. Discípulo de Gandhi, pregava a não-violência. Sabia que "o sofrimento tem o poder de converter o adversário e de abrir seu espírito que, do contrário, permanece surdo à voz da razão". Publicou seu livro Combates pela liberdade em 1958, envolto num humanismo confiante, seu credo pacifista.
Mais do que nunca, King foi alvo de acusações. No dia 20 de setembro de 1958, manipulada por uma campanha de difamação arquitetada contra ele, uma doente mental, que o supunha comunista, cravou-lhe um corta-papel no peito. O pastor escapou à morte por um triz. Interpretando essa agressão como um sinal, decidiu viajar à Índia, a fim de sincronizar seus passos com os de Gandhi. À margem do Ganges, King entreviu "a luz que pode brilhar nas trevas". Tanto que, no fim de sua peregrinação, anotou em seu diário: "O caminho da submissão conduz ao suicídio moral e espiritual. O caminho da violência conduz os sobreviventes ao rancor e os destruidores à bestialidade. Mas o caminho da não-violência leva à redenção [...]".
Reforçado em suas convicções, King retornou ao Alabama. Ali, em breve, seria obrigado a fazer uma escolha. Como a presidência da SCLC conflitava cada vez mais com sua atividade pastoral, voltou a Atlanta, onde, em 1960, passou a ser pastor adjunto da igreja de Ebenezer. A partir de então, a ação militante se alastrou por todo o Sul. Tal como Montgomery, Greensboro foi palco de uma revolução em desenvolvimento. Nessa cidade da Carolina do Norte, quatro estudantes negros desafiaram a polícia, "sentando-se no interior" de um restaurante, apesar das leis segregacionistas. Foi o início dos famosos sit-in. Esse movimento se estendeu a dezenas de cidades. E, mesmo sem ter sido seu instigador, King participou do rápido desenvolvimento do movimento estudantil. Preso numa manifestação em Atlanta, foi condenado a quatro meses de trabalho forçado na penitenciária de Reidsville (Geórgia). Mas Robert Kennedy, preocupado com a disputa da presidência da qual participava seu irmão, obteve do juiz a anulação da pena. Mediante o pagamento de fiança, é claro.
Para comprovar a eficácia da não-violência, King lançou a campanha de Birmingham em 1963, visando à dessegregação dos cafés e das grandes lojas de departamentos. Tratava-se de aplicar um golpe fatal contra a discriminação na própria cidadela da Ku Klux Klan. Em 12 de abril, foi preso por infração da proibição das passeatas.
Pressionado pelas autoridades religiosas brancas para pôr fim às agitações, endereçou-lhes, no dia 19 de abril, uma Carta da prisão de Birmingham, que viria a ser o manifesto do Movimento pelos Direitos Civis. "Uma lei injusta é uma lei humana sem raízes na lei natural e eterna. Toda lei que eleva a personalidade humana é justa. Toda lei que impõe a segregação é injusta porque a segregação deforma a alma e prejudica a personalidade." John Kennedy, agora inquilino da Casa Branca, e o irmão Bob intervieram uma vez mais para tirá-lo da prisão.
Em 20 de maio, a Suprema Corte declarou inconstitucional a legislação segregacionista de Birmingham. Algumas semanas depois, Kennedy anunciou uma nova legislação sobre os direitos civis. No dia 28 de agosto, realizou-se a Marcha sobre Washington, no fim da qual Martin Luther King fez seu mais célebre discurso: "Eu tenho um sonho". Porém, em 22 de novembro seguinte, King viu no assassinato de John Kennedy a premonição de seu próprio fim: "É o que também vai acontecer comigo. Esta sociedade está doente!" Mesmo assim, em 2 de julho de 1964, viajou a Washington para presenciar a assinatura da lei dos direitos civis (o Civil Rights Act) pelo presidente Lyndon Johnson.
Porém, sem o direito às urnas e à mercê da pobreza endêmica, as gerações de negros continuavam vivendo à margem da prosperidade. No dia 14 de outubro de 1964, Martin Luther King recebeu o Nobel da Paz. Encarou a distinção como o reconhecimento da legitimidade de sua luta pela comunidade internacional. "Aceito hoje o prêmio com uma fé inquebrantável nos Estados Unidos e com uma fé inabalável no futuro da humanidade [...]", disse na cerimônia de 10 de dezembro, em Oslo. Simultaneamente, J. Edgar Hoover, o chefe do FBI, contrariado com tantas homenagens, ameaçou: "Devemos segui-lo passo a passo [...] como o negro mais perigoso para o futuro deste país."
Sem embargo, Martin Luther King organizou a marcha de Selma, em 25 de março de 1965, que foi "o mesmo que Birmingham em 1963. Estava em jogo o direito de voto, que substituiu o problema do transporte coletivo no espírito de um vasto povo ansioso [...] por ter voz na questão do seu próprio destino." Depois de dezenas de marchas de protesto e de algumas centenas de mortos, Johnson assinou o Voting Rights Act, que condenava a segregação nos locais públicos e protegia o direito de voto dos negros.
No dia-a-dia, tais medidas não passavam de ilusão. Embora não tivesse perdido o carisma, King convencia cada vez menos. Desanimado, traído, passou a radicalizar suas posições e a pregar "a participação no poder". Em 1967, declarou-se contrário à Guerra do Vietnã, atitude que provocou divergências no seio da SCLC e suscitou a desconfiança do FBI.
Quando organizava a Marcha dos Pobres sobre Washington, King decidiu ir a Memphis (Tennessee) levar seu apoio aos lixeiros em greve que haviam sido reprimidos. Um morto, prisões em massa. Caminhou pela última vez com os oprimidos. No dia 3 de abril de 1968, fez o último discurso no templo do bispo Charles J. Mason: "Pouco importa o que me acontecer agora, pois já cheguei ao cume da montanha [...] Olhei à minha volta. E vi a Terra Prometida. Pode ser que não entre nela com vocês [...] Estou feliz esta noite [...] Nada me preocupa [...]"
No dia seguinte, detendo-se junto ao balcão do Motel Lorraine, ele falou a um amigo que passava: "É claro que esta noite, você vai tocar Senhor, segura a minha mão. Toque-a bem para mim". Nesse exato momento, ouviu-se um disparo. King tombou com um buraco na garganta.

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dezembro 20, 2005

Homicídio Legal
Por Walter Fanganiello Maierovitch

“Assim como ao médico é legítimo amputar o membro infeccionado para salvar o corpo humano ameaçado, deve-se permitir ao Estado exterminar o elemento nocivo ao organismo social.”
A supracitada colocação não é do governador-ator Arnold Schwarzenegger, acostumado a interpretar no cinema o papel de vingador da sociedade, com tiros e muito sangue. Também não é da lavra de Lora Owens, sogra do caixa da loja onde trabalhava a vítima de um dos crimes de latrocínio atribuídos a Stanley Williams.
Schwarzenegger e Lora Owens disseram outras coisas sobre Stanley Williams, apelidado de Tookie, executado na terça-feira 13, com emprego de injeção letal ministrada na cela da morte do célebre presídio de San Quentin, a 30 quilômetros de São Francisco, na Califórnia.
Tookie, um negro de 51 anos, fora condenado à morte, em 1981, por quatro crimes de latrocínio (matar para roubar) consumados em 1979, ou seja, há mais de 26 anos. A decisão condenatória acabou confirmada pela Suprema Corte dos EUA. Suas imputadas vítimas foram, em lugares e momentos distintos, três imigrantes chineses, donos de um hotel, e o mencionado caixa de uma loja de conveniências noturna.
Para o governador-ator Schwarzenegger, que poderia ter transformado a pena capital em prisão perpétua, Tookie não merecia clemência. No seu juízo canhestro, isso somente seria possível caso tivesse confessado os crimes, condição reveladora de arrependimento.
No mundo civilizado, os penalistas ensinam que a emenda de um sentenciado é aferida pelas suas condutas posteriores à consumação dos crimes imputados. Na expiação da pena, o comportamento futuro é que revela a emenda (ressocialização).
No passado, Tookie era violento e organizou uma gangue juvenil de rua que aterrorizou Los Angeles nos anos 70. Nos mais de 20 anos de prisão, demonstrou mudança eticocomportamental.
Ele tornou-se símbolo na luta contra a violência e cultor da paz. Escreveu livros infantis e recebeu indicação ao Nobel da Paz. Como ensinava a penitenciarista espanhola Concepción Arenal, o condenado pode mudar o seu coração e a sua alma.
O juízo externado por Schwarzenegger foi medievalesco, a indicar apenas conseguir trabalhar com o binômio crime-vingança. Ou melhor, não se convence da emenda do condenado por meio de atos concretos, revelados no curso de mais de 20 anos. Pior ainda. Pelo que se comenta, a clemência do governador com relação a Tookie deixou de ser concedida para não abalar, ainda mais, o seu prestígio político. Como a pena de morte foi restaurada na Califórnia em 1977, Schwarzenegger, pelo noticiado, não quis tomar uma decisão impopular, apesar de um bem maior estar em jogo.
Nem as mobilizações internacionais em favor de Tookie sensibilizaram o governador da Califórnia, onde já foram executados 12 condenados. A execução de Tookie representou um espetáculo dantesco, presenciado por 17 jornalistas e 39 convocados, dentre eles cinco testemunhas indicadas pelo próprio condenado.
Para vários jornais europeus, a agonia de Tookie durou exatos 22 minutos, transcorridos entre a demorada aplicação do preparado letal injetado e a chegada da morte. Tookie recusou a última ceia. Bebeu um copo de leite e ficou com a televisão ligada à espera da remoção para a cela da morte. No cerimonial macabro da execução, preferiu deixar um significativo silêncio a exercitar o direito de dizer derradeiras palavras.
Na Califórnia, prevalece o pensamento de Santo Tomás de Aquino, que viveu no século XIII e que comparou a amputação médica à social, pela ordem do “príncipe” (Estado), como registrado no início desta coluna.
Nem o Vaticano, sob o papado conservador de Joseph Ratzinger, aprovou o homicídio legal consumado em San Quentin. Depois da execução de Tookie, o cardeal Renato Martino frisou representar “a pena de morte a negação da dignidade humana”.
Como se percebe, e no particular, a Igreja volta a consagrar a doutrina da Metanóia, ou seja, deve-se acreditar, diante de condutas condenáveis passadas, na “mutação da mente, de toda a maneira de pensar, agir e viver, ou seja, na conversão total do homem”. No campo laico, a Califórnia acabou por fazer tábula rasa a Cesare Bonesana, conhecido como Marquês de Beccaria, que foi o precursor do direito penal moderno, de natureza humanista.
Em 1764, no seu chamado Pequeno Grande Livro, Beccaria alertava não ser justo que o homicídio – que nos ensinavam ser um crime hediondo e que não deveríamos nem pensar em cometer – possa ser praticado friamente, sem remorso, pelo próprio Estado.
Resumindo: em pleno século XXI, cometeu-se um homicídio legal. O assassino, frio e vingativo, foi o estado da Califórnia.

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novembro 28, 2005

ONGs Transnacionais como Tecnologias Intelectuais
Por Samira Feldman Marzochi*

O conceito de tecnologia intelectual permitiria acentuar características relevantes de organizações não-governamentais que atuam transnacionalmente e ajudaria a compreender o modo dessa atuação. Porém, mais do que isso, possibilitaria indagar sobre as implicações das ONGs Transnacionais, como tecnologias intelectuais, para a cultura política em nível mundial. Em outras palavras, se é verdade que organizações não-governamentais estão inseridas no sistema mundial como tecnologias intelectuais, de que forma devemos pensar “democracia”, “cidadania”, “participação”, “representação”?

O conceito de tecnologia do intelecto foi introduzido nas ciências sociais por Jack Goody, referindo-se à escrita em sociedades tradicionais, numa obra de 1968, e re-apropriado por Pierre Lévy, já na década de 90, para pensar as técnicas de comunicação em geral e também instituições. Considero ONGs Transnacionais como um tipo de tecnologia intelectual, articulado a outros, que estaria criando condições institucionais para o desenvolvimento de uma nova cultura política e forçando, por conseguinte, a reflexão sobre “cidadania”, “participação”, “representação”, “democracia’, em outras bases.
Este conceito permitiria acentuar cinco características das ONGs Transnacionais:
1. O seu aspecto dinâmico, mais suscetível às variações da opinião pública que outras instituições;
2. O aspecto tecnológico, pois fazem uso de tecnologias de comunicação como parte de sua atividade cotidiana de troca de informações e produção de imagem publicitária;
3. O aspecto automático, porque passam a orientar-se, uma vez instituídas, para a sobrevivência, adaptação e diferenciação pautadas na contabilidade de erros e acertos inscritos numa memória institucional;
4. O aspecto ideológico, que diz respeito ao descompasso entre a “missão” declarada que fundamenta e justifica as ações da organização e a maneira como atua de fato ou “pensa” institucionalmente;
5. E, por fim, e talvez o mais importante no caso das ONGs Transnacionais, o seu relativo descolamento do sistema institucional mais amplo. Embora estejam, sem dúvida, inseridas no sistema mundial, possuem maior autonomia para deslocar-se geograficamente, abrir escritórios, romper e refazer ligações institucionais, buscar novas fontes de informação, financiamento, estruturar e desfazer grupos de trabalho.
Os cinco aspectos apresentados são, portanto, características que compõem o tipo particular de tecnologia intelectual que são as ONGs Transnacionais. E elas podem ser tratadas como tecnologias porque não só utilizam técnicas de informação como redes eletrônicas, bancos de dados, recursos audiovisuais, mas funcionam elas mesmas como um programa específico que retém memória, produz conhecimento, capta, seleciona, traduz, organiza e transmite informações.
Relacionado às questões da cultura política, um problema, então, se coloca: o conhecimento produzido por uma ONG Transnacional destoa do conhecimento aceito como verdade pelo sistema mais abrangente? Como “pensa” ou atua uma ONG?
Tomo a organização Greenpeace como exemplo de tecnologia intelectual. Seu discurso, a maneira como constrói seu mito fundador, conta sua história, são obviamente forjados, a partir de dados reais, como artifício de sedução do público com objetivo de convertê-lo em sócio ou convencê-lo da legitimidade de suas posições. Fica a dúvida se o Greenpeace, como tecnologia intelectual, produz de fato informações novas, capazes de abalar verdades pré-concebidas pelo sistema, uma vez que depende do financiamento e opinião favorável do público a que se dirige.
Um interessante aspecto da lógica do sistema capitalista, inaugurado pelo “Fetichismo da Mercadoria” de Marx, é a indistinção entre sujeito e objeto, que pode ser entendida como fetichismo e reificação. Nos sites do Greenpeace, de diversos países, lê-se as fichas técnicas dos seus barcos que são apresentados com nome, história, foto e caráter, como se fossem indivíduos autônomos. Funcionam como a encarnação, em diferentes personalidades, do Greenpeace no mar.
A ONG não distingue representação de realidade. Os barcos são extensões da organização, o site é o próprio Greenpeace, em forma e conteúdo, e o mar é incorporado como signo de distinção, independência, aventura e renovação. A natureza que o Greenpeace se dedica a proteger aparece ao mesmo tempo doce e ascética, em fotos coloridas. Os sócios são chamados Cyberativistas que assinam cartas eletrônicas já prontas, contribuem mensalmente com dinheiro e acompanham através de Internet, TV, rádio ou imprensa escrita as “ações diretas” da ONG.
Baleias, barcos, caçadores, presidentes, transgênicos, poluentes, operam num mundo de relações ecológicas em que não fica claro quem tem mais ou menos poder, obrigação, responsabilidade. Um mundo fantástico é recriado a partir da lógica dominante do sistema. Coincidente com esta lógica de indistinção entre sujeito e objeto está a ciência como fonte de legitimidade. Uma ciência bem mais próxima da técnica, da ação, que da ciência especulativa de tradição filosófica antiga, renascentista ou iluminista. É preciso responder às críticas e pautar argumentos sobre dados científicos selecionados estrategicamente, levando-se em conta que um dado científico não é o mais correto, mas aquele capaz de conferir legitimidade.
Uma ONG pode, desse modo, ser lida como uma tecnologia intelectual inserida num sistema mais amplo articulado por regras que irão determinar, pelo menos parcialmente, a lógica do conhecimento que será produzido pela organização. Ou, nas palavras de Bourdieu, o modo como “os interesses subjetivos dos agentes, envolvidos num campo de disputas, são substituídos pelos interesses objetivos do próprio campo”. A dificuldade em mudar essa lógica está, para o mesmo autor, no fato de que as regras do campo são continuamente reafirmadas quando se adere a um jogo de competição por legitimidade e pelas vantagens que advêm da legitimidade.
Desse modo, ONGs participam como sujeitos involuntários de uma configuração específica de poder e produção de verdades. Tal consideração põe em dúvida discursos e práticas que as tomam como promotoras de discussão e questionamento público da realidade ou como representantes da sociedade civil. Num quadro de indistinção entre sujeito e objeto, em que ONGs buscam, sobretudo, evitar a entropia, a natureza é forjada pela publicidade e o conhecimento é produzido com fins de legitimação, como compreender cidadania e representação política?
O conceito de tecnologia intelectual aplicado às ONGs Transnacionais nos permite pensar um novo tipo de ausência de representação e cidadania no campo da política e, mais do que isso, algo inusitado: a política sem o homem, a democracia sem o povo e a privatização da política.
O “homem de chinelos” de Edgar Morin foi radicalizado. Uma constelação de seres humanos privados transfere a capacidade de julgamento individual e participação à condição cibernética das conexões institucionais. As instituições fazem de indivíduos isolados sua extensão e não o contrário, como imaginava McLuhan. A cidadania de fato, nesse contexto, é a das organizações participantes de um governo mundial que os homens se encarregam de pensar, conservar e regular em favor do bom funcionamento das instituições.
O desafio é como converter esta retirada do homem do centro do jogo em algo realmente transformador além de simples reflexo do fetichismo e reificação levados ao limite pelos sistemas luhmannianos. Como o movimento ambientalista, por exemplo, poderia efetuar esta operação em favor da humanidade e da natureza sem contribuir para sedimentar, ainda mais, a lógica sistêmica que as anula ao torná-las equivalentes? Ao mesmo tempo, como recuperar a diferença entre coisas, humanidade, natureza, sem evocar, necessariamente, o antropocentrismo ou apelar para um sujeito transcendental?

* Samira Feldman Marzochi é é doutoranda em Sociologia pelo IFCH/UNicamp. Formou-se em Sociologia, Ciência Política (Unicamp, 1995) e Antropologia (Unicamp, 1996) e é mestre em Sociologia da Cultura (Unicamp, 2000) sob orientação do professor Dr. Renato Ortiz. Em 2002 realizou pesquisa de doutorado em Paris, sob orientação do professor Dr. Michael Löwy, sobre relações institucionais entre ONGs e Sistema das Nações Unidas a partir da Unesco. É membro do Conselho Editorial da Revista Temáticas e da equipe da Comunidade Virtual de Antropologia.

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novembro 25, 2005

Mundo pelo Avesso
Por Emir Sader*

Veja é a pior revista do Brasil. Não é um título fácil de obter, porque ela tem duros competidores –Isto É, Época, Caras, Isto é Dinheiro, Quem?, etc., etc. Mas Veja se esmera na arte da vulgaridade, da mentira, do sensacionalismo, no clima de “guerra fria”, em que a revista defende as cores do bushismo no Brasil. A revista, propriedade privada da família Civita, merece o galardão.
Todo país tem esse tipo de publicação extremista, que defende hoje prioritariamente os ideais dos novos conservadores estadunidenses. Herdam os ideais da guerra fria, se especializam em atacar a esquerda, reproduzem as mesmas matérias internacionais e as bobagens supostamente científicas sobre medicamentos, tratamentos de pele, de problemas psicológicos, de educação, para tentar passar por uma revista que atende a necessidades da família.
Seus colunistas são o melhor exemplo da vulgaridade e da falsa cultura na imprensa brasileira. Uma lista de propagandistas do bushismo, escolhidos seletivamente, reunindo a escritores fracassados, a ex-jornalistas aposentados, a autores de auto-ajuda, a profissionais mercantis da educação, misturando-se e mesclando esses temas em cada uma das colunas e nos editoriais do dono da revista. Uma equipe editorial de nomes desconhecidos cumpre a função de “cães de guarda” dos interesses dos ricos e poderosos – que, em troca, anunciam amplamente na revista – de plantão.

O MST, o PT, a CUT, os intelectuais críticos - são seus alvos prioritários no Brasil. Para isso tem que desqualificar o socialismo, Cuba, a Venezuela, assim como tudo o que desminta o Consenso de Washington, do qual é o Diário Oficial no Brasil.
Só podem fazer isso, mentindo. Mentindo sobre o trabalho do MST com os trabalhadores do campo, nas centenas de assentamentos que acolhem a centenas de milhares de pessoas, famílias que viveram secularmente marginalizadas no Brasil. Têm que esconder o funcionamento do sistema escolar nacional que o MST organizou, responsável, entre outras tantas façanhas, de ter feito mais pela alfabetização no Brasil do que todos os programas governamentais. A Veja não sabe o que é agricultura familiar, com sua mentalidade empresarial se soma ao agronegócio, aos transgênicos e à agricultura de exportação. Ao desconhecer tanta coisa, a Veja tem que mentir para esconder tudo isso dos leitores, passando uma imagem bushiana do MST.
Mentem sobre Cuba, porque escondem que nesse país se produziu a melhor saúde pública do mundo, que ali não há analfabetos – funcionais ou não -, que por lá todos tem acesso – além de saúde, educação, casa própria, a cultura, esporte, lazer. Que o IDH de Cuba é bastante superior ao brasileiro.
A Veja tem que mentir sobre a Venezuela, país em que se promove a prioridade do social, com ¼ dos recursos obtidos com o petróleo irrigando os programas sociais. Que o governo de Hugo Chavez triunfou sobre a mídia privada golpista – as Vejas de lá -, pelo apoio popular que granjeou, quando a Veja, defasada – como sempre – já noticiava na sua capa a queda de Chavez. Depois o governo venezuelano derrotou a oposição em referendo previsto na Constituição daquele país, em que os eleitores, no meio do mandato, se pronunciam sobre a continuidade ou não do governo, em um sistema mais democrático que em qualquer outro lugar do mundo.
A Veja mente sobre os efeitos da globalização neoliberal, que concentrou renda como nunca na história da humanidade, que canaliza recursos do setor produtivo para o especulativo, que cassa os direitos básicos da grande maioria da população, que não retomou o crescimento econômico, como havia prometido.
A Veja mente quando anunciou a morte do PT, no mesmo momento em que mais de 300 mil membros do partido, demonstrando vigor inigualável em qualquer outro partido, foram às urnas escolher, por eleição direta, seus novos dirigentes, apesar da ruidosa e sistemática campanha da mídia bushista brasileira.
A Veja mente para tentar demonstrar que a política externa brasileira é um fracasso, quando ninguém, dentre os comentaristas internacionais, daqui ou de fato, acha isso. Ao contrário, a formação do Grupo dos 20 na última reunião da OMC, o bloqueio ao inicio de funcionamento da ALCA – lamentado pela revista bushista.
A Veja mente, mente, mente, desesperadamente, porque suas verdades são mentiras, porque representa o conservadorismo, a discriminação, a mentalidade mercantil, a repressão, a violência, a falsa cultura, a vulgaridade – enfim, o que de pior o capitalismo brasileiro já produziu. Choca-se com o humanismo, a democracia, a socialização, os interesses públicos. Por isso, para “fabricar consensos” – conforme a expressão de Chomsky, a Veja mente, mente, mente, desesperadamente.

*Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História".

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outubro 25, 2005

Cultura não é mercadoria

A Unesco aprovou na semana passada, com pouquíssima repercussão na imprensa brasileira, a Convenção sobre Diversidade Cultural. A resolução foi apoiada por 148 países, com 2 votos contra – EUA e Israel, para quem os intercâmbios culturais deveriam ser regidos pelas mesmas leis do comércio internacional.
Depois de longos anos de debate, finalmente a Unesco aprovou, na semana passada – com pouquíssima repercussão na imprensa brasileira –a Convenção sobre Diversidade Cultural, em sua 33ª Conferência Geral, realizada em Paris. A resolução foi apoiada por 148 países, com 2 votos contra – EUA e Israel – e 4 abstenções – Austrália, Nicarágua, Honduras e Libéria.
Para os EUA, os intercâmbios culturais deveriam ser regidos pelas mesmas leis do comércio internacional, submetidas às políticas de “livre-comércio” da OMC. O debate transcorreu ao longo de duas décadas e meia, quando os EUA, não contentes de dispor de 85% do mercado mundial de cinema, queriam poder estender ainda mais o seu império, para o que necessitariam do desaparecimento das políticas culturais de caráter nacional ou de integração regional, de apoio a projetos, de divulgação ou de cotas de proteção dos mercados nacionais e regionais.
A resistência foi iniciada pelos franceses, em princípio com a definição do que chamavam de “exceções culturais”, mas que evoluiu para a definição da defesa da “diversidade cultural”. Os EUA haviam chegado a abandonar a Unesco, em 1984, descontentes com os rumos que tomava a discussão. Retornaram recentemente, mas encontraram um consenso geral contrário às suas posições, que se expressou finalmente na votação da semana passada.
Aliados dos EUA, como o ex-primeiro ministro espanhol José Maria Aznar, chegaram a expressar o conteúdo das posições de Washington com rara dureza: “a exceção cultural é o argumento dos países culturalmente fracos”, disse ele. Para os EUA, a aprovação da resolução “pode prejudicar a livre circulação de bens e serviços” e “legitimar as violações dos direitos humanos” (sic). Washington pressionou fortemente seus aliados, com argumentos utilizados diretamente por Condoleeza Rice, como os de que deixariam de comprar produtos como arroz, trigo, algodão, importados da América Central. Com isso, conseguiram a abstenção da Nicarágua e de Honduras.
A aprovação da convenção não garante sua imediata aprovação, apenas instaura o marco legal de defesa da diversidade cultural. Mas só terá validade para os países que a ratificarem. Fundamental agora é que, da forma mais rápida possível e pelo maior número de governos, o acordo seja ratificado, para que a hegemonia imperial não imponha sua brutal homogeneidade de forma ainda mais ilimitada ao mundo todo.

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setembro 30, 2005

Que fim levou Paris...

Maio de 1968
Por Marcelo Xavier

1871. Toda a França está ocupada pelo exército prussiano. Ao tentar interferir na sucessão da Espanha, Napoleão III desagradou a Prússia, que mantinha os ibéricos sob sua influência. Os desentendimentos entre o imperador prussiano culminaram na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Durante a progressão do conflito, as tropas francesas sofriam derrotas sucessivas, sendo que o próprio imperador já havia se rendido e se encontrava prisioneiro. Toda a França está ocupada. Toda? Não! Cercado pelo inimigo, os parisienses revoltaram-se num feroz movimento que passou para a história com o nome de Comuna. O fator culminante para a criação daquele estado “citadino” foi a humilhante capitulação dos monarquistas em favor da Prússia. Os adeptos de Napoleão, apoiados pelos camponeses e por grandes proprietários, davam um cavalo para não voltar à revolução social de 1848. Por cinco meses, o inimigo cercou a futura Cidade-Luz. A derrota do exército francês havia selado a guerra. O povo de Paris, ao perceber que o governo provisório (instalado em Versalhes) nada faria por eles, decidiu levantar barricadas, fechando a cidade. Apesar da patriótica resistência, Versalhes já havia assinado a rendição, em janeiro daquele ano. Em conseqüência disso, Paris se fechou para si mesmo, criando um regime político particular contra tudo e contra todos, como os gauleses das histórias de René Goscinny. Em maio de 1871, uma violenta repressão promovida pelas forças reacionárias derrubou as barricadas e tomou a cidade, executando milhares de trabalhadores amotinados: pelo menos 20 mil parisienses foram mortos durante o ataque. Depois que a poeira assentou, ficou um porém: o temor de que, mais cedo ou mais tarde, novas barricadas fossem erguidas. Para evitá-las, a prefeitura destruiu todos os prédios nos bulevares e ruas avenidas centrais foram todas alargadas. Com tamanha largura, seria impossível fechá-las com barricadas. Mas Paris seria sempre Paris — como diria Bogart em Casablanca — e maio seria sempre maio. Quase um século após a Comuna, o atavismo “revolucionário” foi mais forte. Tanto que, nas trágicas noites de 10 e 24 de maio de 1968 — há exatos trinta e cinco anos, nada menos de 40 barricadas foram erguidas nos quartiers da margem esquerda do Sena. Entre recordações nostálgicas dos anos 60 e declarações de desilusão a respeito dos fins e meios daquele momento histórico, a rebelião dos jovens é sempre lembrada.

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O COMEÇO — De 1960 até maio daquele ano (que, segundo Zuenir Ventura, não acabou), surgiu na França um movimento contestatório da juventude contra a sociedade dos seus pais e avós. De acordo com o historiador Alexandre Roche, tal contestação nascia do abandono dos ideais de liberalismo e comunismo, da revolução sexual, da democratização dos costumes, das modificações da Igreja e de uma abordagem existencial da vida. “A França de 1958 era uma sociedade do século 19, sobretudo no interior”, diz Roche. Ele sustenta que, de 1946 a 68, o movimento jovem foi sustentado e impelido por uma explosão demográfica pela qual a França não passava desde os tempos do Iluminismo: em 1964, a proporção de jovens que entravam na universidade deveria ser multiplicada por dez em relação a 1946. “Foi esse peso que deu aos jovens a sua força”, revela.
A Rue d’Ulm, onde fica a Escola Normal Superior, exercia uma grande influência sobre a Universidade. Pensadores daquela instituição liam de Proudhon e Malthus, de Lênin a Taylor e achavam que esses autores seriam tão revolucionários quanto negligenciados. Junto a estes, os métodos de Foucault, Lacan, Barthes, Levi-Strauss e Sartre serviam para que eles criticassem o comodismo e a mistificação. Havia agitação no ar. Roche entende que o movimento se dividiu em três partes: a primeira, com o “Não” otimista, em maio; a utopia e o político, em junho; a contestação sistemática ou o “Não” radical. Os movimentos de abril e maio dividiam facções de esquerda, liberais e conservadores. Também por isso, a tentativa de trazer camponeses e operários ao movimento fracassou e perdeu o combate. Por fim, veio a última fase do conflito, a esquerda, solitária e radical, libertária, anarquista, maoísta, guevarista, socialista, comunista e sem poção mágica, foi atacada pela polícia, perseguida, detida, condenada e desterrada. Como em 1871, a esquerda do “Nós Iremos até o Fim” e do “Início de uma Luta Prolongada” acabou pagando caro por suas utopias.
A HISTÓRIA — A guerrilha urbana de maio de 68, em Paris, começou dois meses antes na Universidade de Nanterre, por um motivo reles: em março, a reitoria da instituição (12 mil alunos) baixou norma proibindo que rapazes visitassem moças em seus dormitórios. De carona, um jovem estudante judeu-alemão, Daniel Cohn-Bendit, reuniu um grupo de cem colegas, e invadiu a secretaria da escola. Assustado com a represália, o reitor Pierre Grappin suspendeu as aulas chamou a polícia. O incidente foi, de início, apenas um fato isolado. Porém, foi ali que nasceu a estrela de Bendit no meio estudantil, que se transformou em Dany le Rouge (Daniel o Vermelho, por causa da cor dos seus cabelos), um Robespierre de centro acadêmico. Ele era bolsista do governo alemão, filho de pais judeus que emigraram para a França fugindo do Nazismo. Contra a estudantada de esquerda, um grupelho fascista, formado por ex-pára-quedistas, o Occident, apelava para a ignorância seus adversários. Estes, não se intimidavam: enchiam as paredes brancas da universidade com grafites. Muitos ficaram famosos: Aqui termina a liberdade! Nem Mestre nem Deus! O Vietcongue vencerá! Amemo-nos uns sobre os outros. Somos todos enragés (raivosos). E o mais célebre: Corre, camarada, o velho mundo está atrás de ti!... No dia três, os estudantes de Nanterre organizam uma manifestação na Sorbonne. No local, corria o boato de que os baderneiros do Occident pretendiam invadir a escola. Logo, esquerdistas ululantes começam a demolir classes e mesas. Rilham os dentes e se armam. A polícia é chamada. Conflitos entre estudantes e a tropa de choque ocorrem no Quartier Latin. No rabo de arraia, a polícia faz 596 prisões.
Para organizar a arruaça, os estudantes precisavam de um líder. No meio da bagunça, La Rouge aparece, entre apupos e assovios. É Daniel Cohn-Bendit, que conclama a todos, e discursa: “A Sorbonne deve transformar-se numa nova Nanterre!”. Os aplausos chegam aos ouvidos até então ensurdecidos do reitor Jean Roche, que toma uma decisão inédita na história da Universidade de Paris: escreve ao Comissariado de Polícia do Quartier Latin exigindo medidas para acabar a patacoada naquela histórica instituição. À tarde, é a vez dos gendarmes invadirem o pátio da faculdade, como iconoclastas furibundos. Se Deus não existe, tudo é permitido. No rescaldo do dia seguinte, as aulas são suspensas, a União dos Estudantes da França (Unef) e o Sindicato Nacional de Ensino Superior (Snesup) convocam greve por tempo indeterminado.
Seis de maio de 1968. Cresce a escalada da violência em Paris. Uma multidão sobe a Rue St. Jacques, disposta a retomar a Sorbonne ocupada por policiais. Rodolfo e Mimi não viveram para ver a cena: La Rouge, Alain Geismar (secretário do Snesup) e Jaques Sauvageot (vice-presidente da Unef) lideram mais uma baderna no Quartier Latin. As primeiras barricadas aparecem. Um poderoso efetivo da tropa de choque impede-lhes a passagem. A batalha começa. De um lado, rapazes e moças jogam nos policiais paralelepípedos arrancados das ruas. Estes respondem com granadas de gás lacrimogêneo. A vanguarda dos estudantes é formada por rapagões, a cabeça protegida por capacetes de moto. As moças repõem a munição, com paralelepípedos e pedras. Durante a batalha, que durou quase duas horas, 350 policiais foram feridos, a maioria com fraturas. Os estudantes se aperfeiçoam: protegem os olhos com óculos de mergulhadores e bicarbonato de sódio, como antídoto contra o gás. Rádios portáteis transmitem-lhes ordens da liderança. É o prenúncio das barricadas que deixariam Paris em chamas nas noites de 10 e 24 de maio.
Naquela altura, a cobertura do incidente pela Imprensa (eram mais de mil repórteres, a maioria pega de surpresa) foi realizada apenas por emissoras periféricas, com transmissores localizados em Luxemburgo ou em Monte Carlo, e com unidades móveis em Paris. Com o silêncio da Office de la Radio Télévison Française, (ORTF, estatal), os franceses só ficaram sabendo da situação “por fora”. Censura? O constrangimento foi tanto que, envergonhados e revoltados, seus funcionários se declararam em greve geral em prol da liberdade de informação.
Um dos 1.434 correspondentes da rebelião é o jornalista Flávio Alcaraz Gomes, que escreveu A Rebelião dos Jovens (editora Globo, esgotado) sobre os incidentes de maio em Paris. Enviado à Cidade-Luz para cobrir uma conferência diplomática, se viu no meio de uma guerra civil. Como testemunha ocular, ele pôde descrever, com riqueza de detalhes, o que aconteceu durante a balbúrdia estudantil de 1968: “Acabei de despachar pelo teletipo meu serviço para o Correio do Povo e volto ao Boulevard St. Michel, foco da rebelião. Uma multidão de jovens está entrincheirada em pelo menos 20 barricadas, de onde grita insultos contra o governo. 'De Gaulle assassino’ é a frase repetida em uníssono. A Polícia se decide: é preciso 'limpar' o quartier antes de o dia nascer. 2h50min. A polícia ataca. Parece uma carga de infantes medievais. A primeira barricada, na metade da avenida, cai com pouca resistência. As próximas ao Jardim de Luxembourg, porém, parecem inexpugnáveis. Quando as tropas se aproximam, são recebidos com uma saraivada de pedras e por dezenas de automóveis incendiados, jogados lomba abaixo. Gente chora, devido ao gás e às pancadas. Sirenes rasgam a noite. Fogueiras por toda parte. Moços e moças bradam desesperados por socorro - e a guerra prossegue até às 6h da primeira manhã em que Paris esteve em chamas”.
A Paris dos amantes agora arranca paralelepípedos das ruas e enche os muros de dizeres: Soyez solidaires et non solitaires! (Sejam solidários, e não solitários!); Même si Dieu existait il faudrait le supprimer (Mesmo se Deus existisse, seria preciso suprimi-lo); À bas les journalistes e ceux qui veulent les ménager (Abaixo os jornalistas e aqueles que querem manejá-los); Les syndicats sont des bordels (Os sindicatos são bordéis); La liberté est le crime qui contient tous les crimes (A liberdade é o crime que encerra todos os crimes); Ceux qui font les révolutions à moitié ne font que se creuser un tombeau (Aqueles que fazem as revoluções pela metade nada mais fazem do que cavar seu túmulo); E, destacando-se das demais, a que ficou como marca registrada: Défense d`interdire! (É proibido proibir).
“CHIENLIT” — A segunda noite das barricadas aconteceu a 24 de maio de 1968, logo depois de o presidente Charles de Gaulle ter proposto um referendo para decidir se permaneceria ou não no governo. Ao mesmo tempo, o movimento estudantil tentava contaminar os operários. Uma semana antes, centenas de fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores. No dia 20, o número total de grevistas chagou a 10 milhões. La Rouge foi proibido de permanecer na França. Dois dias antes, a oposição não conseguiu obter votos necessários para a moção de censura a Georges Pompidou, primeiro-ministro, na Assembléia Nacional. Estudantes se manifestam contra a expulsão de Cohn-Bendit. Um a um, os serviços públicos essenciais interrompiam o trabalho. O aeroporto de Orly fechou. Os vôos eram obrigados a descer em Le Bourget. Mas as coisas se complicaram mesmo quando as garotas do famoso cabaré Lido declararam-se também em greve.
Flávio Alcaraz Gomes conta que ele também viu elementos estranhos ao movimento estudantil infiltrarem-se em seu meio, usando motosserras. “Em questão de minutos, os plátanos centenários do boulevard Saint Michel eram abatidos para engrossar as barricadas, nas quais se empilhavam móveis, pedras e automóveis”, revela. “Ao mesmo tempo, outros grupos profissionais, empregando compressores de ar, literalmente descascavam a rua, retirando-lhes os paralelepípedos, para munição dos rebelados”. Após a convulsão, a Prefeitura de Paris passou a asfaltar todas as ruas e avenidas. Foi nesse momento que, voltando de uma viagem à Romênia, De Gaulle, furioso, exclamou: “La réforme oui, la chienlit non”. Pouca gente entendeu o chienlit. Depois, descobriram: defecar no leito. “É o que o general-presidente iria evitar que acontecesse”.
Nas catacumbas, o Partido do Medo se insurgia. Não possuía programa nem estatutos, mas se transformou na mais poderosa agremiação política do país. Seus integrantes eram a maioria silenciosa, que temia o pior. “Nos dias imediatos à segunda noite das barricadas, porém, de Gaulle parecia um moribundo ao ver as dificuldades internas derrubarem seus sonhos de liderança européia”, conta Alcaraz.. “Por mais que seus porta-vozes literários e filosóficos alardeiem o contrário, o francês é um dos povos mais aburguesados do mundo, e a perspectiva de ver instalada em sua terra uma república anárquico-vermelha começou a deixá-lo em pânico. A reação não tardaria a se fazer sentir”.
REI POSTO — Terça-feira, 28 de maio. De Gaulle não dá mais sinal de vida. François Mitterand, então presidente da Federação da Esquerda e adversário do general desde a Resistência, propõe a formação de um governo provisório dirigido pelos esquerdistas coligados. Também se apresenta candidato à Presidência da República. Já Pierre Mendès-France, ex-primeiro-ministro da 4a República, declara-se também candidato. “Tudo é procedido e divulgado como se a França estivesse acéfala e o seu velho rei, morto, a majestade perdida”, analisa o jornalista. A situação torna-se mais explosiva quando, naquela noite, cruzando a fronteira e com o cabelo pintado de preto, Dani (agora ex-vermelho) instala-se na Sorbonne e convoca a imprensa para proclamar o óbvio: a anarquia tinha se instalado na França.
Paris, 28 de maio de 1968. A França está paralisada. Nas ruas, multidões de estudantes e de operários (em manifestações distintas, já que os trabalhadores consideram a estudantada um bando de filhinhos de papai) substituem o slogan “De Gaulle assassin” por “De Gaulle démission”. As pessoas abandonam as cidades. De repente, o suspense e, logo, o pânico: De Gaulle havia desaparecido. No dia anterior, sindicatos, empresários e governo negociavam um acordo que previa aumento de salários, redução de horas de trabalho e a participação dos trabalhadores na gestão das empresas. No dia 29, todos souberam: De Gaulle havia partido secretamente para Baden-Baden. O objetivo era encontrar-se com o general Massu e os principais comandos, num quartel-general das forças armadas francesas na Alemanha. Fez um apelo dramático: ou o Exército o apoiava ou a subversão totalitária tomaria conta do país. Os oficiais se comoveram, e o general Metz, comandante da praça de Paris, jurou lealdade ao presidente.
“RETOUR A LA NORMALLE” — De Gaulle sentiu-se vencedor. Voltando do encontro secreto, o primeiro mandatário francês dirige-se à nação pelo rádio e televisão. Com firmeza, anuncia a dissolução da Assembléia nacional e diz que não renuncia e convoca eleições gerais, que são realizadas em dois turnos, a 23 e 30 de junho de 1968. No mesmo dia, cerca de 800 mil pessoas manifestam-se em apoio a De Gaulle em Paris. A rebelião dos jovens passou a ter seus dias contados. No dia 31 de maio, governo é reorganizado. A nova equipe tem 19 ministros e secretários de Estado remanescentes da anterior, mas doze deles apenas trocam de função — é o chamado ‘seis por meia-dúzia’. Como dizia um cartaz, com um desenho de um rebanho de ovelhas, afixado na Sorbonne: de volta à normalidade.
A pá-de-cal na Rebelião de Maio ficou a cargo da maioria silenciosa, quando o Partido do Medo demonstra a sua pujança. Concluídas as apurações, os resultados foram surpreendentes: os gaullistas conquistam 297 das 387 cadeiras no parlamento. Seus aliados Republicanos, 53, e as esquerdas reunidas, 137. O Partido Comunista tem seus 73 assentos reduzidos a 34 e a Federação da Esquerda, do ex-candidato-a-candidato François Mitterrand, que antes da crise tinha 121 deputados, consegue eleger apenas 57. Falando ao France Soir, seus inconsoláveis líderes praguejam: “Pagamos pelas barricadas que não erguemos”.
CONCLUSÕES — Flávio Alcaraz Gomes conta em suas memórias que, terminada a guerrilha de maio de 1968, partiu em peregrinação profissional pela Europa, retornando a Paris um mês mais tarde. “Quando desci no aeroporto de Orly, completamente normalizado, e dali me dirigi ao meu bairro - o Quartier Latin - fui percebendo, ao longo dos 14 quilômetros do caminho, que as coisas haviam mudado. As bandeiras vermelhas e negras tinham sumido”, descreve. Em seu lugar, guirlandas tricolores drapejavam ao vento ameno de uma primavera a substituir o inverno de sombras e de medos de maio. “Desço o boulevard Saint Michel e o noto fisicamente diferente: seus plátanos centenários, serrados criminosamente pelos anarquistas, estavam substituídos por mudinhas novas, e o antigo calçamento de paralelepípedo coberto por espessa camada de asfalto para evitar que fosse novamente descascado. Sorbonne e Odeon estavam fechados para reparos. Enfim, as mudanças aparentes eram essas. E as mudanças essenciais: teriam elas acontecido na cabeça das gentes?”.
O filósofo Allain Finkielkraut, que participou das manifestações, entende que era preciso “desestabilizar certas convenções e denunciar uma certa ordem repressiva” mas, segundo ele, não se pode exagerar a importância de maio. “A substituição do ideal hedonista pelo ideal ascético estava inscrita na propaganda da nossa sociedade”, explica. “O episódio acelerou um processo já em curso, ligado ao individualismo”. Para Finkielkraut, 1968 não foi uma revolução: “o movimento surpreendeu os próprios atores, não foi fomentado”, entende o filósofo. “Isso explica em parte a nostalgia existente. Acontecimento é o termo mais adequado como definição”. A respeito dos “atores”, Flávio Alcaraz tece sua crítica no sentido de que os protagonistas da revolta, como Cohn-Bendit, se transformaram num ícone mais do lirismo da aura de 68 do que num homem que manteve sua convicção ao espírito de Maio.
O próprio Dani le Rouge se defende. Hoje ex-prefeito-adjunto de Frankfurt e deputado europeu eleito pelo Partido Verde alemão, Cohn-Bendit corrobora a tese de que, como todos, foi pego de surpresa pelos acontecimentos e entende que a revolução é um fantasma das sociedades: para ele, elas só precisam mudar. Quanto à batalha campal pelas ruas de Paris, ele acredita que elas são “falsas”: “elas não são nada comparadas com as revoltas de camponeses, ainda atuais”. Ao invés de revolução, a revolta juvenil canalizou perspectivas. “[1968] abriu uma brecha para um movimento social heterogêneo que procurava expressar-se”, revela. Sobre o “fracasso” eleitoral, ele defende que não havia força capaz de fazer a revolução, muito menos capaz de obter maioria parlamentar. “Até os que participaram da greve geral acabaram votando em De Gaulle: não queriam comunistas no poder, e Mitterand entendeu que uma esquerda radical jamais seria maioria”, diz le Rouge. “Perdemos no [terreno] político, mas ganhamos no sócio-cultural”, conclui.

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agosto 10, 2005

A verdadeira Mary Pop

Filosofia agora é pop
Por Ana Santa Cruz e Rodrigo Brancatelli

Antes relegada aos círculos acadêmicos, a filosofia cai no gosto de artistas, empresários, socialites e estudantes. O interesse pelo assunto leva à multiplicação de cursos ministrados por professores de renome, traduz-se na vendagem de livros de linguagem acessível e até pela expansão de práticas contestadas de aconselhamento filosófico e filosofia clínica...
A empresária e socialite Yara Baumgart, freqüentadora assídua das páginas de Caras, fez. A atriz Claúdia Abreu, a malvada Laura da novela “Celebridade”, faz. O ex-jogador de futebol e neo-ongueiro Raí vai fazer. Yara formou-se recentemente pela PUC de São Paulo. A atriz divide-se entre os estúdios de gravação de novelas e os bancos acadêmicos da PUC do Rio de Janeiro, onde cursa o quarto ano. Raí foi atrás de uma solução mais imediatista em vez de ralar quatro anos em uma universidade: matriculou-se em uma das turmas do curso “Os Pensadores” da Casa do Saber, instituição comercial inaugurada no ano passado em São Paulo e que vai de vento em popa na missão de dar um lustre no conhecimento durante encontros quinzenais, mediante o pagamento de R$ 630.
Yara, Cláudia e Raí são alguns dos nomes mais célebres entre o crescente número de interessados em conhecer a fundo a tal da filosofia. Nos últimos anos, formar grupos sob a orientação de um professor para discutir o pensamento de nomões como Decartes, Kant e Nietzsche extrapolou o ambiente das universidades e, digamos, ganhou as ruas. “Hoje é até ‘in’ estudar filosofia”, diz Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo e colaborador da AOL do Brasil. E por que isso acontece? “Porque quando se atende às necessidades básicas, a indagação atinge outro nível. Quem se questiona não o faz porque precisa sobreviver. Faz isso porque chegou a um patamar tal de qualidade que pode ir adiante e pensar: ‘O que vou fazer?’, ‘O que vou ser?’. Estas são questões essencialmente filosóficas.”
A busca por respostas alavanca as vendas de livros de filósofos cujo trabalho é direcionado aos leigos. Na Europa, o maior expoente é Alain de Botton. Suíço radicado em Londres, Botton, de apenas 34 anos, mescla seus ensinamentos com uma boa dose de humor ao tratar de questões cotidianas que atormentam a humanidade desde que o mundo é mundo. Em um de seus mais recentes livros, “Consolações da Filosofia” (Editora Rocco), invoca Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche para falar de falta de dinheiro, da dor do amor rejeitado, do sentimento de inadequação na sociedade, da ansiedade, do medo de falhar.

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Friedrich Wilhelm Nietzsche: caindo no gosto de socialites, tornando-se "in" e rentável.

Há quem goste do estilo ligeiro e bem humorado de Botton mesmo entre os acadêmicos. “Ele é hábil com idéias. Tanto por traduzir com inteligência os sentimentos inenarráveis do cotidiano quanto por produzir livros filosóficos com linguagem acessível e suscinta”, elogia João Paulo Mascarenhas, professor de filosofia da PUC de São Paulo. Mas a opinião favorável ao autor suíço não é compartilhada por Renato Janine Ribeiro. Ele faz restrição a títulos do tipo “Como Proust pode mudar sua vida”, um dos best-sellers do filósofo Alain de Botton. “Não gosto dos livros no formato de manual que pretendem ensinar apresentando resultados ou soluções. Interessante é o livro de introdução à filosofia que familiariza o leitor com a matéria por meio da dúvida”. O professor paulista também evita apontar obras de introdução que distinguem teses e escolas, o que resulta em algo pesado. Um dos caminhos indicados por ele para os leigos é procurar livros pelos quais o leitor se apaixone. Um exemplo? “O mundo de Sofia”, best-seller de Jostein Gaarder, que ficou na lista dos mais vendidos durante meses no Brasil. “O bom destas obras é que elas ajudam o leitor a identificar o segundo passo: que filósofo ler”, diz Janine Ribeiro.
Na mesma linha de Allain de Botton, há o canadense Lou Marinoff, professor da City College de Nova York, e autor de quatro livros, todos best-sellers. Seu título mais famoso, “Mais Platão, menos prozac”, foi publicado em 20 países. No Brasil, foi editado pela Record e traz apresentação de... Paulo Coelho! Por aqui, o livro já está na sexta edição e vendeu 15.466 cópias. Este número o torna um sucesso editorial. Além de viver dos direitos autorais de suas publicações, Lou Marinoff também faz palestras em empresas e em eventos especialíssimos como o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, e se dedica a um novo ramo de atividade: o aconselhamento clínico. Trata-se de prática que consiste em uma sessão parecida a de psicanálise, na qual o cliente que o procura é bombardeado por perguntas e instado a fazer outras tantas a si mesmo em busca de solução para determinada angústia ou problema. O preço cobrado por sessão é de 100 dólares, valor correspondente ao de uma tradicional sessão de psicanálise.
Pela prática do aconselhamento filosófico, Marinoff tem sido muito atacado. A principal crítica pode ser resumida na pergunta: como pode um filósofo, portanto, uma pessoa sem treinamento médico, saber se o problema que aflige um cliente não requer intervenção de um médico? A reportagem da AOL fez a pergunta ao canadense (clique aqui e leia a entrevista completa). Sua resposta: “Filósofos são altamente treinados na arte do diálogo, do questionamento, na arte do pensamento crítico. O que fazemos com as pessoas que nos procuram é ter certeza de que elas realmente têm um problema filosófico e não um de ordem médica. É exatamente isto que fazemos na primeira sessão: descobrimos o motivo que faz com que elas venham a nós”.
A maneira consolidada da prática do aconselhamento filosófico surgiu em 1981, na Alemanha. O primeiro filósofo a dar consultas particulares foi Gerd Achenbach. Como parte de um programa de prevenção ao suicídio ele se pôs à disposição de quem quisesse conversar sobre suas angústias. O filósofo alemão não chegou a elaborar um método de atendimento e até hoje ataca as pessoas que, como Marinoff, usam a filosofia com a finalidade de cura.
Mesmo à revelia de Achenbach, a prática se disseminou pela Europa, pelos Estados Unidos e pela América do Sul. No Brasil, um dos seguidores é o filósofo gaúcho Lúcio Packter que introduziu e radicalizou a prática em Porto Alegre, em 1994. Packter explica o que faz: a pessoa procura um filósofo com uma angústia, e o filósofo, dependendo da natureza da queixa, pede o exame de um clínico geral. “Às vezes uma pessoa apresenta dores de cabeça, ansiedades, angústias e isso é o resultado de choques internos graves. Ficam depressivas porque querem fazer algo que entra em choque com seus valores. O filósofo pode ajudar neste ponto”, diz Packter.
Diante das críticas sobre o perigo potencial de um filósofo tratar com palavras quem precisa de ajuda especializada ele responde: “A filosofia é, por natureza, polêmica por si só. O filósofo aprende desde a graduação a questionar os outros, a se questionar e a ser questionado”. Packter já treinou mais de duas centenas de colegas na mesma prática e faz, em média, de cinco, seis palestras em universidades de todo Brasil todos os meses. Ou seja, ele repete o mesmo caminho trilhado por seus colegas Allain de Botton e Lou Marinoff, transformando a filosofia em um negócio rentável. Algo que provavelmente o pai dos filósofos, o grego Sócrates, nunca imaginou que pudesse acontecer.

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junho 21, 2005

Inveja do Brasil
por Marilene Felinto

Os grandes invejosos: a imprensa brasileira golpista, a Argentina e o PSDB das baratas tontas. Não porque o país esteja às mil maravilhas, mas apenas porque vem se dando muito bem (como nunca se deu) em alguns setores específicos.
A imprensa golpista, a serviço dos interesses da classe dominante, e por não ter ainda conseguido derrubar um governo como o do PT de Lula, inventa crises todos os dias e a cada movimento do governo.
Uma das últimas da central de fabricação de mentiras da imprensa golpista (encabeçada pelo jornal Folha de S. Paulo e macaqueada pela TV Bandeirantes e outros órgãos de mídia jornalística de péssima qualidade) foi uma suposta “briga” entre o presidente Lula e o argentino Néstor Kirchner, por ocasião da cúpula dos países árabes e sul-americanos que ocorreu em Brasília, em maio último. Apontavam-se, entre os motivos, “a política de independência do Brasil”, que preferiria “relações mais estreitas com o eixo Sul-Sul”, ou o “papel central que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer exercer na região”, ou a “falta de apoio do Brasil à Argentina junto ao FMI”.
A imprensa golpista não somente fez de tudo para subestimar a importância do encontro de cúpula entre árabes e sul-americanos como tentou tirar o foco de evento tão importante e inédito na história do Brasil. Tentou reduzir o encontro a uma falsa crise entre Lula e Kirchner. Logo após a cúpula, o próprio Kirchner desmentiu a especulação. Em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, no final de maio, ele disse que “com o presidente do Brasil” tem “uma excelente relação e muito mais concordâncias do que se acredita. O que acontece é que sempre a disputa comercial entre os países encobre tudo”.
Então, o ponto é este: a Argentina se ressente com o sucesso da economia e da política externa brasileiras. Mas é claro que a imprensa golpista não diz isso - porque teria de admitir que o governo Lula está transformando o Brasil numa potência comercial; porque teria de admitir que o governo que eles (imprensa golpista, a serviço dos interesses da classe dominante e da oligarquia do PSDB) pensavam derrubar em seis meses não se revelou o que eles professavam. Muito pelo contrário.
Elementos da potência brasileira: o quinto maior país do planeta em superfície, que pode se tornar, dentro de dez anos, o principal produtor agrícola mundial. “As realizações (do Brasil) no campo da agricultura são desde já impressionantes: primeiro produtor e exportador mundial de açúcar, de café, de suco de laranja, primeiro exportador mundial de tabaco, de carne bovina e de frango, e segundo exportador de soja”, afirmava o impressionado jornal francês Le Monde, em 24 de maio último. E acrescentava: “No total, ele (o Brasil) sobe para o terceiro degrau do pódio, atrás dos Estados Unidos e da União Européia”.
A Argentina, um país meio metido a europeu, hoje desprestigiado e sem credibilidade no mundo, com sua economia no fundo do poço, tem inveja de que a verdadeira potência da América do Sul seja o Brasil. Essa rivalidade é antiga, mas nem por isso estabelece atualmente uma “crise” entre os dois países. As relações comerciais no Mercosul estão em franca expansão.
Se houve (ou deveria ter havido) um “conflito” recente entre Argentina e Brasil, foi pela agressão racista de um jogador de futebol argentino contra o brasileiro e são-paulino Grafite. Mas, como a imprensa brasileira golpista não existe para defender o direito de pretos e pardos, tratou o escândalo a seu modo blasé (do mesmo modo que as confederações de futebol), condenando, muitas vezes, o jogador brasileiro por ter “exagerado” ao denunciar criminalmente o argentino Desábato. Ora, a Argentina é um país branco, majoritariamente racista e cuja história também é marcada pelo extermínio puro e simples de negros africanos. Quem é preto ou pardo e já sofreu discriminação de argentinos sabe do que estou falando.
Num artigo para a agência Argenpress, de 2004, intitulado “Africanos em Buenos Aires - Os Outros Desaparecidos”, Roberto Morini afirma que a Argentina branca conseguiu ocultar bem seu passado de escravidão africana, mas que não pode esconder as marcas do racismo que ressurgem da história a todo momento. Morini conta que, em 1810, os negros eram um terço da população de Buenos Aires, mas que em apenas cinqüenta anos já tinham praticamente desaparecido. Segundo Morini, “o fim da escravidão só serviu para exterminá-los” e “somente nos últimos anos do século 20 pôde-se observar uma tímida recuperação da visibilidade do africano em Buenos Aires”.
As conquistas brasileiras obtidas na esfera internacional, tanto na política quanto no comércio, estão entaladas na garganta da imprensa brasileira golpista e do partido a que ela serve - o PSDB paulista das baratas tontas Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e José Serra. Em composição com a imprensa também paulista, eles dançam miudinho para tentar desestabilizar tanto sucesso. Basta citar, na lista de sucessos, a recente vitória brasileira na Organização Mundial do Comércio, no caso do açúcar, derrotando a poderosa União Européia e conseguindo com que os produtores brasileiros reduzam pela metade os preços de seus produtos para vendê-los em igualdade de condições no mercado internacional. Conquista inédita, quase inacreditável, reveladora do dinamismo e da inteligência da política externa chefiada pelo ministro Celso Amorim - um diplomata de verdade, o oposto do marasmo paralisante dos homens de FHC nessa área. Quem não se lembra da subserviência do então ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, que tirou os sapatos num aeroporto europeu para ser revistado?! Foi nessa posição de humilhação que o governo FHC sempre colocou o Brasil no mundo.
O PSDB e a imprensa golpista que o apóia são uma oligarquia de gente colonizada, maquiada de erudição. Exemplo do espírito de colonizado da imprensa golpista: em 25 de maio último, na edição noturna do Jornal da Band (TV Bandeirantes), o âncora Carlos Nascimento perguntou ao comentarista Joelmir Beting: “Há mesmo tanta importância em o Brasil vir a ocupar uma cadeira no Conselho Permanente de Segurança da ONU?” Beting respondeu algo como: “Isso é mais para provocar ciúmes na Argentina”. Pasmem com tamanha manipulação, com tanto desserviço, tanta desinformação e ignorância!
E não se pode esquecer da cobertura revoltante da imprensa golpista quando da Cúpula de Países Árabes e Sul-Americanos. Trata-se de uma imprensa antiárabe, antipalestina, que fez de tudo para minimizar a importância do encontro, para desqualificar o esforço do governo para a organização de evento tão complexo e de desdenhar a aproximação entre essas populações do mundo. O jornal Folha de S. Paulo, na voz de seus colunistas golpistas (leiam-se, como exemplo, os textos de Eliane Catanhede sobre essa cobertura), babou manipulação de todo tipo, sempre defendendo Israel e Estados Unidos, como se o evento tivesse sido montado contra esses dois países irmãos carnais na belicosidade. Não foi. Ninguém estava interessado em Israel e Estados Unidos. Ali, o que interessava eram os árabes e os sul-americanos - pela primeira vez na história. Ponto final. É isso que eles, colonizados e invejosos, não conseguem engolir.

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maio 05, 2005

Habemus então...

Um alemão conservador
Por José Luis Fiori

Primeiro, foi a derrota de John Kerry, nos Estados Unidos, e agora, a vitória de Joseph Ratzinger, no Vaticano, dois revezes contundentes para os liberais de todo o mundo. Muitos supunham que depois do primeiro governo Bush, e do longo papado conservador de João Paulo II, seria hora dos liberais voltarem ao poder, segundo uma regra de alternância que muitos analistas consideram indispensável ao equilíbrio dos sistemas, como na fantasia dos economistas. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário, e no caso do Vaticano, o novo papa alemão tem um perfil ainda mais radical e intolerante do que seu antecessor.
Não é fácil de explicar a vitória de Ratzinger, mesmo quando se saiba do poder que detinha dentro do colégio eleitoral que foi nomeado - quase todo - pelo seu antecessor. De um ponto de vista menos institucional ou eclesiástico, entretanto, uma primeira pista para explicar esta continuidade conservadora pode ser encontrada na própria fragilidade intelectual dos seus adversários. Basta ler com atenção as suas respectivas agendas e propostas para perceber que os liberais alinhados em torno do Cardeal Carlo Maria Martini, assim como os que apoiaram a candidatura de John Kerry, não foram capazes de oferecer uma alternativa concreta à agenda conservadora mundial destes últimos 30 anos. Como se os liberais também tivessem sido atingidos pela epidemia ou anemia que dizimou o pensamento social-democrata, na década de 1990.

Da perspectiva desta hegemonia conservadora das últimas décadas, a escolha de Ratzinger aparece como um ponto apenas dentro de uma trajetória política e ideológica de mais longo prazo, que chega até os “neoconservadores” do governo Bush, mas que começa em Roma, exatamente na hora em que o Vaticano surpreendeu o mundo católico – em 1978 - ao transformar um cardeal obscuro, proveniente de uma das comunidades católicas mais reacionárias e piegas da Europa, no Papa João Paulo II. Sua eleição foi o verdadeiro ponto de partida ideológico deste longo período conservador que se prolonga até hoje, começando na forma de uma resposta aos movimentos emancipatórios dos anos 60 e à grande crise econômica da década de 70. Para ser fiel as datas, Karol Wotjyla foi eleito em 1978, Margareth Thatcher , em 1979, Ronald Reagan, em 1980 e Helmut Khol, em 1983. Suas eleições não fizeram parte de uma mesma estratégia, nem obedeceram a uma cadeia coordenada de comando ou decisão. Mas todos eram profundamente conservadores, e suas idéias e ações convergiram em torno de uma mesma estratégia anti-comunista, criando-se uma força política e ideológica coesa que derrubou o mundo socialista, atravessou os anos 90 e chegou até os nossos dias cada vez mais conservadora, autoritária e expansiva. Já se estudou e falou muito das transformações econômicas, financeira e geopolíticas que começaram com a crise mundial dos anos 70, em particular das reformas e políticas neo-liberais, mas talvez não se tenha dado a devida atenção à dimensão cultural e religiosa desta expansão vitoriosa dos conservadores, pelo menos até o momento em que o fundamentalismo religioso se transformou no grande cabo eleitoral da reeleição de George Bush, em 2004.
É reconhecido o papel de João Paulo II na luta e na desmontagem do mundo comunista, sobretudo na região da Europa central. Alguém já disse que se não fosse por Wotjyla, não teria havido o sindicato Solidariedade, e se não fosse por causa da existência do Solidariedade, não teria havia eleições na Polônia, e se não fosse pelas eleições polonesas não teriam existido as “revoluções de veludo”, que devolveram a Europa central ao “ocidente cristão”. Mas depois disto, se discutiu pouco a importância do conservadorismo moral de João Paulo II, e da intolerância teológica de sua Cúria Romana, na recomposição das energias expansivas do conservadorismo ocidental, que hoje alimenta o discurso e pratica messiânica do governo norte-americano de George Bush. Neste sentido, é interessante agregar a este quadro alguns outros acontecimentos que ocorreram de forma independente, naquele mesmo momento da “virada à direita” do “mundo ocidental”, entre 1978 e 1983. Acontecimentos que apontavam, entretanto, na mesma direção da intolerância religiosa e da escalada militar. Basta relembrar, a revolução xiita, no Irã, em 1979; a invasão do Irã pelas tropas sunitas de Saddam Hussein, em 1980, apoiadas e sustentadas pelas armas químicas e biológicas dos Estados Unidos e de vários países europeus; o aparecimento dos talibãs no Afeganistão, e, finalmente, em 1982, a “invasão preventiva” do Líbano pelas tropas de Ariel Sharon, que culminou com o célebre massacre dos palestinos, nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Quatro acontecimentos militares de forte conotação religiosa que se transformaram em peças do tabuleiro onde foi se armando, aos poucos, mais do que uma restauração conservadora, uma verdadeira “escalada aos extremos” teológicos – e as vezes militares - das religiões ocidentais que C.J.Jung e A.Toynbee chamaram de “extrovertidas”, ou seja, com vocação apostólica e conquistadora, ao contrário das religiões orientais que seriam essencialmente “introvertidas” e não expansivas.
Desta mesma perspectiva, a escolha de um papa alemão e conservador também tem um outro significado complementar: assim como Wotjyla foi escolhido pelos olhos estratégicos do Vaticano e das demais potências ocidentais com vistas a conquista do mundo comunista, Ratzinger foi eleito para unificar e recristianizar a “velha Europa”, segundo a proposta de João Paulo II, apresentada em Santiago de Compostela, na Espanha, em 1982. Este objetivo central explica seu apelo imediato ao diálogo entre as religiões cristãs e os judeus, e ao esquecimento do seu texto Dominus Iesus, publicado em 2000, defendendo a superioridade e inevitabilidade do catolicismo como caminho da salvação. Este mesmo projeto explica sua resistência explicita à incorporação da Turquia à União Européia. As críticas de Ratzinger ao relativismo, ao individualismo, ao consumismo e ao agnosticismo, feitas na sua homilia “pro-eligiendo”, que foi uma espécie de carta de princípios e programa eleitoral publicado na véspera da reunião do colégio de cardeais, foi uma crítica direta ao “amolecimento espiritual” da Europa, afogada num hedonismo laico, egoísta e desfibrado. Em Ratzinger, está sempre implícita a visão de uma União Européia que engordou excessivamente e perdeu sua capacidade de decisão e ação coletiva, gerida por partidos e lideranças políticas liberais e social-democratas sem idéias claras, sem energia e sem capacidade de liderança mundial. Como um velho alemão, conservador e teólogo, Ratzinger acredita na necessidade de voltar às raízes últimas da unidade e da força européia, o Santo Graal onde se escondem as primeiras verdades do cristianismo, imbatíveis e inegociáveis. Nesse sentido, Ratzinger defende para a Europa como para toda a Igreja Católica – mesmo que seja em sentido metafórico - um período de volta aos monastérios, onde seus povos e seus líderes recuperem a força espiritual capaz de recolocar a Europa na liderança mundial, por cima do fundamentalismo protestante dos norte-americanos. Sua meta é de longo prazo, e não se restringe apenas ao projeto de democratização ou conversão do “Grande Oriente Médio” dos neo-conservadores de Washington. Na verdade, seus olhos catequéticos ou conquistadores estão postos num horizonte mais longínquo, no imenso pedaço do mundo eurasiano onde o Papa João Paulo II não colocou os pés e onde as religiões “introvertidas” são hegemônicas, mas não tem pretensões expansivas.

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abril 19, 2005

E o corpo, ainda é pouco...

A verdade e o poder, uma aliança para além do bem e do mal
Castor M.M. Bartolomé Ruiz

A verdade está revestida com toda a roupagem significativa do bem e do justo. Aquilo que é verdadeiro parece que é eticamente inatacável. No seu lado sombrio parece se alojar o poder. O poder carrega o estigma do mal. Ele aparece como o responsável último por quase todos os vícios e paixões humanos que vão desde a ambição até a opressão, passando pela inveja, o ódio, etc.
Estes estereótipos conceituais da verdade e do poder parecem consolidados como verdades naturais. Porém, eles são do que símbolos culturais que instituímos para nossas práticas. Verdade e poder parecem dois conceitos irreconciliáveis, porém nada mais são do que dois símbolos inseparáveis.
A afirmação anterior é provocativa, mas não inconseqüente, vejamos. Em primeiro momento temos que despojar a verdade de suas vestes de inocência, pois toda verdade –seja ela qual for- produz efeitos de poder. Isso significa que a verdade, quando aceita pelos sujeitos, provoca efeitos de poder sobre suas vidas. Ou seja, a verdade tem o poder de influenciar a conduta dos sujeitos e das sociedades. Aliás, a conduta das pessoas e das sociedades é pautada pelas verdades que elas produzem e aceitam. As verdades socialmente aceitas têm o poder de induzir o comportamento das pessoas. É assim que uma verdade, quando se consolida como verdade para uma pessoa ou para um grupo, tem efeitos de poder sobre eles.
Podemos afirmar que toda verdade produz efeitos de poder. Os efeitos de poder da verdade são proporcionais ao seu grau de aceitação social. Verdades amplamente aceitas produzem efeitos de poder muito maiores. As verdades podem induzir o comportamento social das pessoas segundo os parâmetros por elas pro/postos.
Por sua vez, todo dispositivo de poder produz formas de verdade para se legitimar socialmente. O poder é uma fonte de produção de verdades, pois todo poder se consolida socialmente quando as verdades por ele produzidas são amplamente aceitas. Não existe dispositivo de poder que não produza formas de verdade, nem verdades que não produzam efeitos de poder. É desta forma que dois conceitos que vulgarmente parecem irreconciliáveis, atuam, efetivamente, como símbolos indissociáveis. Alguns exemplos podem nos esclarecer mais. O conceito de liberdade liberal está construído como uma verdade vinculada ao amplo e irrestrito exercício de nossos desejos. Segundo esse símbolo de liberdade, quando más conseguirmos realizar o que desejarmos, mais livres seremos. Com base nesta verdade amplamente aceita, os dispositivos de poder do capitalismo faz décadas que investiram maciçamente na produção dos desejos dos indivíduos. Hoje uma imensa constelação de saberes e de profissionais se dedicam a estimular desejos, a produzir necessidades, a provocar anseios, a fabricar sonhos, etc. Tudo isso com o objetivo de induzir o comportamento dos indivíduos sujeitando-os aos interesses institucionais produtores das verdades ofertadas. A maioria dos indivíduos não se questionam sobre como esses desejos, e as necessidades subseqüentes, surgiram e amadureceram neles. Ao acreditarem que são livres realizando seus desejos, procuram satisfazer aquilo que desejam, geralmente possuindo coisas, dando-se o paradoxo de que quanto mais desejos realizam mais se sujeitam aos dispositivos de poder que provocaram esses desejos. O paradoxo é maior porque quanto mais desejos realizam mais livres se sentem, quando na verdade esse modelo de liberdade os sujeita mais estreitamente aos dispositivos de poder responsáveis pelas verdades dos seus desejos. Neste caso, o símbolo de liberdade liberal é um tipo de verdade cujos efeitos de poder sujeita mais firmemente os indivíduos às estruturas que provocam seus desejos.

Podemos propor um outro exemplo. Nas últimas décadas o corpo foi ganhando importância na vida pessoal e social até o extremo em que podemos afirmar que vivemos uma ditadura do corpo. O sujeito pós-moderno foi perdendo a dimensão de profundidade que caracterizava ao sujeito tradicional, tornando-o cada vez mais epidérmico ou superficial. O limite da superficialidade se encontra na identificação do sujeito com seu corpo.
O efeito de poder desta verdade é o aumento da preocupação com o próprio corpo, chegando a um limite em que o sujeito pode gritar como máxima de vida: eu sou meu corpo! Os efeitos de poder desta verdade são visíveis. Academias repletas, aumento das cirurgias plásticas, medo das gorduras, obsessão com dietas, crescimento exponencial da indústria de cosméticos, o (ab)uso dos corpos em todas as instâncias mediáticas, medos e ansiedades com o próprio corpo, relacionamentos epidérmicos, etc.
As novas verdades sobre o corpo provocam amplos efeitos de poder sobre os sujeitos. Curiosamente poderíamos dizer que esse tipo de verdade era muito pouco "verdadeira" nas sociedades tradicionais, onde a preocupação com o corpo era muito menor e conseqüentemente seus efeitos de poder também eram menores. Os padrões de beleza nada mais são do que tipos de verdade com efeitos de poder.
Ampliando o exemplo anterior, percebemos que nas sociedades tradicionais a beleza feminina era a de formas arredondadas, quase gordinha, e a cor da pele branca; até o extremo das mulheres usarem pó de arroz para branquear sua pele. Se por trás de uma verdade existe um dispositivo de poder, aqui podemos detectar que as classes dominantes das socied